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PSOL recebe mais votos que PT em SP, mas elege menos deputados

PSOL recebe mais votos que PT em SP, mas elege menos deputados
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A paradoxo das eleições proporcionais em São Paulo

A eleição proporcional funcionou de maneira inesperada nas eleições de 2026 em São Paulo, revelando como a eleição proporcional pode gerar resultados aparentemente contraditórios. Embora o PSOL, federado com a Rede, tenha conquistado aproximadamente 3 milhões de votos no estado, o partido elegeu apenas 6 deputados federais, enquanto o PT, PCdoB e PV, com cerca de 2,5 milhões de votos, conseguiu 11 cadeiras. Este cenário evidencia a importância das regras que regem a eleição proporcional no Brasil.

Como funciona o sistema proporcional para deputados

Na eleição proporcional para a Câmara Federal, o voto individual do eleitor não elege diretamente o candidato escolhido. Em vez disso, cada voto é contabilizado para o partido ou federação do candidato selecionado. A soma total de votos recebidos por uma legenda determina quantas cadeiras ela conquistará entre as 70 vagas disponíveis em São Paulo.

Quando um candidato ou candidata recebe uma votação extraordinária, como ocorreu com Erika Hilton, que conquistou mais de 1,5 milhão de votos individuais, esse desempenho excepcional pode impulsionar outros membros da mesma legenda. Esse fenômeno é conhecido como "puxar" votos para o partido. Porém, para serem eleitos, os candidatos beneficiados também precisam atingir uma votação individual mínima estabelecida pelas regras eleitorais.

O papel do quociente eleitoral

O quociente eleitoral é o critério fundamental que determina quantos votos cada candidato precisa obter individualmente para conseguir uma cadeira. A Justiça Eleitoral calcula esse número dividindo o total de votos válidos da eleição pelo número de vagas em disputa, excluindo votos brancos, nulos e abstenções.

Em São Paulo, o quociente eleitoral ficou em aproximadamente 338 mil votos. Isso significa que cada candidato precisava atingir pelo menos 10% desse valor, ou seja, cerca de 33,8 mil votos individuais para ter direito ao mandato. Segundo a advogada especialista em direito eleitoral Iohana Bezerra, essa é uma exigência estabelecida pela legislação eleitoral brasileira.

Por que o PSOL elegeu apenas 6 deputados

Da federação formada por PSOL e Rede, apenas seis candidatos conseguiram ultrapassar o piso de 33,8 mil votos exigido. Foram eles: Erika Hilton com 1,5 milhão de votos, Sâmia Bonfim com 583 mil, Guilherme Cortez com 275 mil, Professora Luciene Cavalcante com 253 mil, Natália Boulos com 114 mil e Sônia Guajajara com 54 mil votos.

Os demais candidatos da federação ficaram abaixo do requisito mínimo. Raul Marcelo, o próximo na lista, recebeu apenas 29 mil votos. Juliano Medeiros, ex-presidente do PSOL, obteve aproximadamente 25 mil, enquanto Thiago Ávila, da Rede, conseguiu 21 mil votos. Esses números, apesarade significativos, não foram suficientes para atingir a meta exigida pela eleição proporcional.

A vantagem numérica do PT na votação individual

O PT, por sua vez, apresentava uma estrutura diferente. Na federação PT-PCdoB-PV, 13 candidatos superaram 90 mil votos individualmente, garantindo que a legenda tivesse nomes suficientes para preencher todas as vagas que a soma total de votos lhe concedia. Luna Zarattini, a candidata mais votada do PT, recebeu 233 mil votos, demonstrando uma distribuição mais equilibrada de votação entre seus candidatos.

Renato Ribeiro de Almeida, advogado especialista em direito eleitoral, explica que "a votação extraordinária de Erika ajudou o conjunto, mas não substituiu os votos que seus colegas precisavam obter individualmente". Isso demonstra que concentração de votos em um único candidato, embora benéfica para o partido, não é suficiente para garantir um número maior de eleitos quando outros candidatos não atingem o patamar mínimo exigido.

As "sobras eleitorais" e a distribuição final

Quando uma federação ou partido não consegue preencher todas as cadeiras que seus votos totais lhe garantiriam, essas vagas não preenchidas entram em uma disputa chamada "sobras eleitorais". Nesse mecanismo, as cadeiras restantes são distribuídas entre todos os partidos e federações que atendem aos requisitos legais, seguindo o sistema de maiores médias.

Nesse cálculo, o voto total de cada grupo é dividido pelo número de cadeiras já conquistadas, acrescido de uma unidade. O grupo com a maior média que atender às exigências recebe a próxima vaga. Esse processo continua até que todas as 70 vagas de São Paulo sejam preenchidas. Como explica Iohana Bezerra, as cadeiras não preenchidas pelo PSOL/Rede não são automaticamente transferidas para outro partido, mas retornam para essa disputa geral.

A hipótese de uma federação entre PSOL e PT

Após os resultados das eleições, alguns apoiadores do PSOL especularam nas redes sociais como teria sido o resultado se o partido tivesse aceitado uma federação com o PT, opção que havia sido discutida mas rejeitada em votação interna. No entanto, especialistas alertam que essa análise é muito mais complexa do que parece.

Iohana Bezerra aponta que "os resultados de ontem não permitem afirmar isso". A advogada explica que um cálculo dessa natureza seria puramente hipotético e dependeria de premissas frágeis. Em uma federação única, a lista de candidatos seria única e limitada ao número de vagas. Além disso, as estratégias de campanha seriam diferentes, e uma parte do eleitorado poderia não votar da mesma forma, alterando completamente o cenário.

Segundo Renato Ribeiro, uma eventual federação entre PSOL e PT poderia ser avaliada através de simulações dos resultados, mas isso não garantiria automaticamente a eleição de mais deputados do PSOL. O desempenho de Erika poderia ajudar o grupo a conquistar cadeiras, porém as vagas adicionais poderiam ser ocupadas por candidatos do PT com mais votação individual, sem necessariamente ampliar a bancada do PSOL.

Entendendo as regras da democracia proporcional

A eleição proporcional no Brasil busca representar a diversidade política da população. Contudo, como demonstra o caso do PSOL em São Paulo, o sistema pode gerar resultados que parecem contraditórios à primeira vista. Um partido com mais votos totais pode eleger menos deputados se seus candidatos não atingem individualmente o patamar mínimo exigido.

Esse mecanismo é fundamental para evitar a fragmentação extrema do Congresso e garantir que os eleitos tenham uma base mínima de sustentação. A necessidade de cada candidato atingir aproximadamente 10% do quociente eleitoral assegura que apenas candidatos com votação significativa sejam eleitos, independentemente da soma total de votos da legenda.

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