Gazeta de Portugal

Brasil questiona tarifas americanas na quinta reunião comercial

Brasil questiona tarifas americanas na quinta reunião comercial
Fonte: g1.globo.com/economia/noticia/2026/07/14/na-vespera-do-prazo-para-eua-decidir-sobre-novas-taxas-brasil-faz-reuniao-com-americanos-e-diz-que-tarifaco-e-injusto.ghtml

Brasil questiona tarifas americanas em reunião de alto nível

O governo brasileiro reuniu-se com representantes do governo dos Estados Unidos na terça-feira para criticar as tarifas comerciais que podem ser aplicadas ao país. Esta foi a quinta rodada de negociações desde maio, quando os dois presidentes estabeleceram um grupo de trabalho dedicado ao diálogo comercial. A discussão sobre as tarifas comerciais EUA Brasil mantém-se como ponto crítico nas relações bilaterais entre as nações.

Na ocasião, autoridades brasileiras reiteraram que consideram injusta a aplicação das recomendações já divulgadas pela administração americana, tanto a resultante da Seção 301 específica para o Brasil, com sobretaxas de 25%, quanto a de 12,5% aplicável a outras 59 economias. O governo argumenta que nenhuma das razões apontadas na investigação justifica a implementação das tarifas recomendadas.

Investigação comercial americana e seus fundamentos

Os Estados Unidos conduzem investigação contra o Brasil sob a Seção 301, alegando supostas práticas comerciais desleais. A investigação concentra-se em três áreas principais que geram preocupações para ambas as partes.

PIX e sistema de pagamentos

O primeiro ponto diz respeito ao PIX, sistema de pagamento instantâneo brasileiro. Os americanos alegam que o sistema prejudica empresas norte-americanas de cartões de crédito, impactando sua competitividade no mercado brasileiro. Esta questão revelou-se particularmente sensível nas negociações, com representantes americanos sinalizando inflexibilidade quanto a mudanças no funcionamento do sistema.

Desmatamento ilegal e exportações agrícolas

O segundo aspecto refere-se ao desmatamento ilegal. Os Estados Unidos apontam uma suposta falta de eficácia na fiscalização brasileira, que resultaria na exportação de produtos agrícolas potencialmente originários de áreas desmatadas. Dados apresentados pelo governo brasileiro sobre desmatamento foram desconsiderados nas negociações, segundo integrantes da diplomacia brasileira, sem que houvesse contrapropostas ou indicações por parte dos americanos.

Regulação do setor tecnológico

O terceiro ponto envolve reivindicações das grandes empresas de tecnologia americanas sobre regulação do setor no Brasil. As big techs buscam influenciar a legislação brasileira de forma mais favorável aos seus interesses comerciais.

Posicionamento brasileiro e avanços nas negociações

Conforme a avaliação de negociadores brasileiros envolvidos nas conversas, foi possível obter alguns avanços junto ao governo americano. Há cerca de dez dias, realizou-se uma reunião técnica entre negociadores dos dois países, e o Brasil apresentou uma proposta de encaminhamento acerca dos seis pontos levantados pelo USTR na abertura da investigação comercial.

Porém, desde maio, os representantes da Casa Branca passaram a se mostrar inflexíveis, apresentando questões que consideram inegociáveis, como mudanças no PIX e na legislação sobre minerais críticos. Esta mudança de postura criou obstáculos significativos nas negociações comerciais entre os países.

Posicionamento presidencial e orientações diplomáticas

De acordo com ministros, a ordem do presidente Lula foi que o Brasil não deixe a mesa de negociação nem permita que a ideologia contamine as conversas. No início da manhã de terça-feira, auxiliares do presidente Lula passaram a tentar contato com interlocutores de Donald Trump para tentar uma nova rodada de negociação.

O governo brasileiro, no entanto, avaliou que a decisão do USTR de recomendar as tarifas foi motivada por considerações políticas. Apesar disso, um eventual adiamento das tarifas passou a ser considerado improvável pelo governo, especialmente diante do prazo definido pela administração americana para o anúncio das medidas.

Relações comerciais e argumentos da defesa brasileira

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. De acordo com dados governamentais, dos dez produtos americanos mais vendidos no Brasil, oito entram sem tarifa. Além disso, segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, a tarifa média aplicada aos principais produtos com origem americana é de apenas 3%.

Diante deste cenário, Alckkim tem argumentado que a implementação de tarifas comerciais americanas não faz sentido, considerando o acesso que produtos norte-americanos já possuem ao mercado brasileiro. Este argumento busca demonstrar que o Brasil já oferece condições comerciais favoráveis aos produtos e serviços americanos.

Impactos econômicos potenciais para o Brasil

Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que 4,2 mil produtos brasileiros vendidos no mercado americano podem ser afetados se as tarifas forem implementadas. Juntos, esses 4,2 mil produtos somam US$ 15 bilhões em exportações brasileiras, de acordo com a entidade.

Entre os produtos que podem ser afetados, conforme a CNI, estão ferro gusa, molduras de madeira e álcool etílico. Estes setores representam parcelas importantes da pauta exportadora brasileira e gerariam impactos significativos em suas cadeias produtivas.

Mobilização de entidades comerciais

Nesse contexto, a CNI, a Câmara Americana de Comércio (AmCham) e a US Chamber of Commerce enviaram uma carta conjunta aos ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), além de autoridades americanas como Jamieson Greer. Na carta, pedem que os dois países insistam nas negociações para evitar a escalação da disputa comercial.

Esta mobilização conjunta de entidades comerciais de ambos os lados demonstra o reconhecimento de que uma guerra tarifária prejudicaria não apenas os governos envolvidos, mas também o setor privado e os consumidores nos dois países.

Prazo final e próximos passos

O prazo para o anúncio das medidas e da lista de bens expostos à recomendação terminou em 15 de julho. Este cronograma apertado deixou pouco espaço para manobras diplomáticas de última hora, embora o governo brasileiro tenha mantido tentativas de contato com a administração americana até os últimos momentos.

O resultado desta disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos terá implicações duradouras para a economia brasileira, afetando desde grandes exportadores até pequenas e médias empresas que dependem do mercado americano. As próximas semanas serão decisivas para definir o futuro das relações comerciais bilaterais e o impacto econômico resultante das tarifas comerciais americanas.

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