Gazeta de Portugal

Belchior retorna com reedição em LP de 1988 com citações poéticas

Belchior retorna com reedição em LP de 1988 com citações poéticas
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/07/04/belchior-e-revivido-com-reedicao-em-lp-de-album-de-1988-em-que-citou-poetas-bob-dylan-freud-e-martin-luther-king.ghtml

A volta de Belchior através da reedição em LP

A reedição em LP de "Elogio da Loucura", álbum de 1988 do compositor cearense Belchior, representa uma oportunidade singular para admiradores da obra do artista redescobrirem um trabalho que permaneceu historicamente ofuscado pela proeminência da discografia produzida durante os anos 1970. Gravado em julho de 1988 sob a produção musical de Antonio Foguete e lançado pela PolyGram, este projeto ressurge em vinil fumê translúcido esfumaçado, trazendo consigo toda a carga estética e intelectual que marca a trajetória de Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017).

Embora nenhuma das dez composições autorais do álbum tenha conquistado destaque duradouro ao longo do tempo, a relevância da reedição em LP se manifesta na qualidade literária e na profundidade crítica presentes nas letras. As escolhas estéticas da década de 1980, particularmente a estrutura eletrônica que envolveu a produção musical, criaram uma moldura sonora que se distanciava da essência poética do artista, fator que pode explicar o relativo esquecimento dessas composições.

As referências literárias e culturais presentes no álbum

A veia crítica de Belchior encontra expressão vigorosa em composições como "Balada de Madame Frigidaire", "Kitsch metropolitanus" (em parceria com Jorge Mello, 1988) e "Os profissionais" (1988). Estas músicas apresentam um repertório textual repleto de alusões sofisticadas que transitam da obra de Bob Dylan ao legado de Martin Luther King Jr. (1949 – 1968), do poeta romântico Álvares de Azevedo (1831 – 1852) até o pensamento psicanalítico de Sigmund Freud (1856 – 1939).

Tal riqueza de referências demonstra a preocupação de Belchior em manter a qualidade intelectual de suas composições mesmo durante período em que as tendências comerciais da indústria fonográfica apontavam para outras direções. A reedição em LP permite que nova geração de ouvintes identifique camadas de significado que escaparam ao radar crítico nas décadas anteriores.

As parcerias e diálogos intertextuais

Francisco Casaverde surge como parceiro recorrente nas criações presentes no álbum, tendo colaborado em "Lira dos vinte anos", que abre o lado B da reedição. O título desta composição estabelece diálogo direto com a antologia poética de 1853 do literato paulistano Álvares de Azevedo, revelando a propensão de Belchior em estabelecer conexões profundas com a tradição intelectual brasileira.

Na abertura do lado A, encontra-se "Amor de perdição", também assinada pela dupla Belchior e Casaverde. Seu título remonta ao romance de 1862 do escritor português Camilo Castelo Branco (1825 – 1890), configurando mais um exemplo da estratégia belchioriana de imergir suas composições em universos literários reconhecidos e canonizados.

Graco e as quatro composições colaborativas

O compositor cearense Graccho Silvio Braz Peixoto da Silva, conhecido como Graco, participou da criação de nada menos que quatro das dez faixas do álbum "Elogio da Loucura". Este conjunto de colaborações inclui "Tambor tantã", "No maior jazz", "Recitanda" e "Arte final" (esta última também assinada por Jorge Mello).

"Recitanda" merece destaque especial, pois sua estrutura lírica incorpora versos derivados de alguns dos maiores êxitos que Belchior alcançou durante a década de 1970, criando um elo entre períodos distintos da obra do artista e demonstrando a capacidade de autorreflexão presente em seu trabalho.

Contexto histórico e trajetória discográfica

A reedição em LP de "Elogio da Loucura" insere-se num contexto discográfico específico. O álbum foi lançado um ano após "Melodrama" (1987), que marcou o retorno de Belchior à PolyGram, a mesma gravadora responsável pela distribuição de "Alucinação" em 1976 – disco que consolidou definitivamente a reputação do artista na música brasileira. "Alucinação" completará cinco décadas em 2026, permanecendo como referência fonográfica suprema na discografia do compositor cearense.

O período que se estende de 1976 até 1988 encerra a fase mais fecunda da produção musical de Belchior, quando sua capacidade de síntese entre introspecção melódica e rigor textual permanecia em seu pico. A reedição em LP permite que estudiosos e apreciadores de música brasileira reexaminem este período com ferramentas críticas contemporâneas, potencialmente ressignificando obras que foram prematurnamente descartadas pelos circuitos de consumo musical.

O legado de um artista singular

Belchior, cuja trajetória pessoal frequentemente revelava o peso existencial que marcava sua criação artística, consolidou uma obra que transcende categorias convencionais de gênero ou período. A reedição em LP de "Elogio da Loucura" representa não apenas um exercício de arqueologia discográfica, mas um convite para compreender as múltiplas camadas através das quais o compositor cearense processava sua experiência do mundo.

Este projeto de reedição demonstra reconhecimento renovado de uma obra que merecia maior visibilidade desde sua concepção original. Para os seguidores dedicados de Belchior e para curiosos que desejam explorar aspectos menos documentados de sua trajetória, a volta da reedição em LP oferece material precioso para reflexão e apreciação estética.

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