Juliane Gamboa homenageia mulher que denunciou PM

A história de coragem que inspirou uma canção
Em parceria com o renomado compositor Ivan Lins, Juliane Gamboa relança uma obra musical marcante que celebra a história de resistência de Marli Pereira Soares. O single "Coragem mulher" será disponibilizado em 20 de agosto pela gravadora Biscoito Fino, trazendo à tona um relato de bravura que permaneceu pouco conhecido ao longo das décadas, mesmo entre admiradores de Ivan Lins.
A narrativa que embasa esta produção musical remonta a 13 de outubro de 1979, quando Marli presenciou o assassinato brutal de seu irmão Paulo Pereira Soares, então com apenas 18 anos. Policiais do 20º Batalhão de Polícia Militar invadiram a residência localizada no bairro de Vila Pauline, em Belford Roxo, no interior do Rio de Janeiro, executando o jovem com múltiplos disparos. Diante dessa tragédia incalculável, Marli tomou uma decisão extraordinária que ecoaria pelos anos seguintes.
A denúncia corajosa de Marli Pereira Soares
Contrariando ameaças de morte direcionadas a ela e seus familiares, Marli Pereira Soares compareceu ao batalhão da corporação militar no dia posterior ao crime. Seu ato de coragem iria se repetir em diversas ocasiões, quando retornava tanto ao batalhão quanto às delegacias competentes para reconhecer, apontar e denunciar pessoalmente os responsáveis pela execução de Paulo. Tal demonstração de firmeza lhe conquistou a alcunha de "Marli Coragem" na cobertura jornalística da época.
A ousadia demonstrada por Marli despertou a sensibilidade artística de Ivan Lins. Juntamente com seu parceiro letrista Vitor Martins, o cantor compôs a música que levaria o nome "Coragem mulher", lançada originalmente no álbum "Novo tempo" em 1980. Essa faixa permaneceu como uma pérola musical pouco explorada, mesmo entre conhecedores da obra de Ivan Lins, até que Juliane Gamboa decidisse resgatá-la para uma gravação inédita.
A redescoberta e relançamento do single
Juliane Gamboa, artista que alcançou reconhecimento crítico com o álbum "Jazzwoman" lançado em 2024, deparou-se com essa composição enquanto buscava material musical original para seu próximo trabalho discográfico. A cantora e compositora ficou profundamente tocada pela narrativa subjacente à música e impressionada por desconhecer o nome de Marli Pereira Soares, apesar de sua atuação no movimento negro há vários anos.
Para Juliane, a essência daquilo que a composição simboliza encontra ressonância profunda com sua identidade pessoal e com as trajetórias das mulheres de sua família. A artista reconheceu na história de Marli elementos universais de resistência feminina que transcendem o tempo e continuam relevantes. A gravação contou com arranjo minucioso e produção musical realizada por Diego do Valle, sendo orquestrada sob direção musical da própria Juliane Gamboa nos estúdios da Biscoito Fino no Rio de Janeiro.
Perspectivas dos artistas sobre a relevância contemporânea
Ivan Lins expressa seu otimismo quanto ao potencial transformador dessa canção. Segundo o compositor, a música funciona como ferramenta política e humanística, reafirmando que toda expressão artística carrega dimensões políticas inerentes. Para o cantor, torna-se imperativo que gerações emergentes assumam compromisso genuíno com a melhoria do Brasil sob perspectiva humanística e inclusiva.
O artista enfatiza preocupações contemporâneas com o crescimento da intolerância racial, social e religiosa em escala global. Nesse contexto, composições que denunciam injustiças e celebram resistência ganham urgência redobrada. Ivan Lins creditou a Vitor Martins a concepção original de homenagear Marli através da música, buscando assim oferecer visibilidade e proteção simbólica à sua luta por justiça.
Os ecos de uma dor que se repetiu
A vulnerabilidade enfrentada por Marli Pereira Soares não se limitou ao crime de 1979. Nascida em 1954 na Favela do Pinto, Marli chegaria aos 72 anos carregando as marcas de duas perdas provocadas por ações policiais. Em 13 de janeiro de 1993, exatamente 14 anos após a morte de Paulo, seu filho Sandro, então adolescente com 15 anos de idade, foi assassinado por um policial. Naquela ocasião, nenhuma composição musical foi criada para amplifiar a luta renovada de Marli pela justiça e reparação.
O single "Coragem mulher" representa, portanto, não apenas um resgate histórico, mas uma tentativa contemporânea de honrar a persistência de mulheres como Marli que enfrentaram a máquina estatal mesmo quando solitárias e ameaçadas. A gravação de 2026 funciona como ponte entre passado e presente, lembrando que histórias de resistência feminina continuam fundamentais para a transformação social brasileira.
