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IA em eleições: pesquisador de Oxford questiona impacto real

IA em eleições: pesquisador de Oxford questiona impacto real
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Questionando o Temor à Inteligência Artificial nas Eleições

Nos últimos anos, o impacto da IA em eleições tornou-se motivo de grande preocupação entre autoridades eleitorais, pesquisadores e empresas de tecnologia em todo o mundo. O desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar áudios e imagens realistas alimentou prognósticos alarmistas sobre uma avalanche de desinformação que supostamente varresse as democracias globais. No entanto, segundo Felix Simon, pesquisador da Universidade de Oxford no Reino Unido, as evidências disponíveis sugerem que este temor pode estar sendo significativamente superestimado.

O especialista, vinculado ao Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo e ao Instituto de Internet de Oxford, argumenta que o impacto da IA em eleições tem sido frequentemente magnificado, enquanto fatores políticos tradicionais continuam sendo decisivos para determinar o comportamento dos eleitores muito mais do que deepfakes divulgados em plataformas digitais.

Os Limites Práticos da Influência Digital

Um dos pontos centrais da análise de Simon refere-se à competição pela atenção pública. Segundo o pesquisador, conseguir que as pessoas prestem atenção representa um dos maiores desafios para qualquer estratégia de influência política, independentemente da tecnologia empregada.

"O principal desafio para influenciar o voto das pessoas ou persuadi-las de uma forma ou de outra é conseguir que elas prestem atenção — e isso é muito, muito difícil", explica Simon. Considerando que o dia possui apenas 24 horas, com oito destinadas ao sono e muitas outras ao trabalho e tarefas domésticas, restam aproximadamente quatro horas para entretenimento, interação com conteúdos e pessoas, criando uma competição gigantesca pela atenção durante esse período.

O Papel da Confirmação de Vieses Existentes

Além disso, Simon sustenta que a maioria dos conteúdos utilizados em campanhas nas redes sociais serve primariamente para reforçar opiniões já estabelecidas. Os cidadãos que consomem vídeos, áudios ou imagens geradas por IA em contextos eleitorais geralmente já escolheram seus candidatos e mostram-se mais propensos a acreditar em notícias falsas que favoreçam seu viés ideológico.

"Para ser eficaz, seria necessário que houvesse algum tipo de demanda não atendida por mais desinformação, e isso não existe", aponta o pesquisador. A desinformação funciona porque existem pessoas receptivas a ela, frequentemente aquelas que buscam confirmação de sua visão de mundo ou crenças sobre determinado partido ou candidato. Contudo, a internet já está saturada de desinformação, e embora seja possível criar mais, isso não implica necessariamente em efeitos amplificados.

Análise de Eleições Recentes e Resultados Reais

Um artigo publicado por Simon em colaboração com Sacha Altay, psicólogo e pesquisador da Universidade de Zurique, pela Universidade de Columbia nos Estados Unidos, examinou diversas eleições realizadas entre 2023 e 2024, período em que o temor acerca de conteúdos gerados por IA atingiu níveis elevados. Surpreendentemente, a pesquisa revelou que os impactos previstos simplesmente não se materializaram na escala esperada.

Mesmo com a proliferação de ferramentas generativas de IA, os resultados eleitorais continuaram sendo fortemente influenciados por fatores econômicos, culturais, sociais, partidários, além do papel desempenhado por líderes políticos e meios de comunicação tradicionais. Conforme o artigo afirma: "A influência da IA nas eleições nacionais foi amplamente ofuscada por outros fatores muito mais importantes, como a disposição dos políticos em desinformar, mentir e infringir outras normas".

Predisposições de Longa Data e Fatores Contextuais

Os pesquisadores enfatizam que os eleitores não chegam a uma campanha como folhas em branco, simplesmente aguardando persuasão. Em vez disso, os comportamentos de voto são moldados por um complexo conjunto de fatores, geralmente uma mistura de predisposições de longa data e fatores contextuais de curto prazo.

Estudos clássicos indicam que a filiação partidária, frequentemente formada já na adolescência, serve como um filtro primário através do qual os indivíduos processam informações políticas. Elementos identitários, como vínculos com grupos sociais e orientações ideológicas, também interagem com conteúdos e propagandas consumidas para moldar impressões e sentimentos dos eleitores em relação aos candidatos e temas políticos.

O Fator Humano Supera a Tecnologia

Simon e Altay apontam em seu estudo que o fator humano deveria provocar mais temores do que a inteligência artificial em si. "Ao longo da história, os seres humanos demonstraram uma notável capacidade de inventar histórias falsas, desde lendas urbanas a teorias da conspiração. A desinformação sobre eleições é fácil de criar", afirmam os pesquisadores.

A fonte da informação mostra-se frequentemente mais relevante do que a qualidade ou conteúdo das postagens. Especialmente para eleitores menos radicais ou extremistas, a avaliação das mensagens não baseia-se apenas no que veem ou ouvem, mas também na confiança depositada na fonte. Mesmo que se consiga criar algo mais convincente, isso não significa necessariamente que as pessoas simplesmente aceitem como verdade absoluta, pois existem diversos mecanismos de vigilância epistêmica que nos protegem contra informações falsas.

A Corrida Armamentista Tecnológica

Outro aspecto importante destacado por Felix Simon é que as ferramentas de IA são atualmente de fácil acesso, o que significa que todos os lados da disputa política podem se beneficiar dos avanços tecnológicos. Isso equilibra as forças e faz com que os efeitos práticos da IA em corridas eleitorais sejam menos visíveis.

"Não é apenas um lado que pode usar [a IA], o que cria uma espécie de corrida armamentista onde muito rapidamente se encontra um novo equilíbrio", explica o pesquisador. Quando um partido ou político começa a utilizar IA, seu adversário rapidamente aprende e se adapta, neutralizando qualquer vantagem inicial.

Os Riscos Reais da Desconfiança Generalizada

Apesar dessa análise mais otimista, Simon não argumenta que a IA seja inofensiva ou incapaz de causar danos às eleições e democracias. Experimentos demonstram que esses sistemas, por serem muito eficientes em criar argumentos concisos, estruturados e informativos, são relativamente bons em persuadir pessoas.

Além disso, a produção extensiva de conteúdos gerados por inteligência artificial, associada à discussão sobre o poder da desinformação, possui grande capacidade de provocar uma onda geral de descrença no sistema e nas fontes de informação. Se as pessoas sabem que sistemas de IA podem criar deepfakes convincentes, algumas naturalmente passam a duvidar até de conteúdos reais, pois deixam de ter certeza no que confiar.

O pesquisador argumenta ainda que a própria discussão sobre os perigos da desinformação e da IA para as democracias na imprensa e academia pode ampliar o nível de desconfiança populacional. "As pessoas podem passar a acreditar que a integridade das próprias eleições está comprometida ou que não se pode confiar mais no que se vê", afirma Simon.

Perspectivas Futuras para a IA na Política

Para o futuro, Simon acredita que o papel da IA em eleições crescerá ainda mais simplesmente pela consequência da ampla disponibilidade e adoção crescente dessa tecnologia. Contudo, esse cenário não significa necessariamente efeitos negativos.

Segundo o pesquisador de Oxford, cada vez mais partidos utilizam inteligência artificial para criação de materiais políticos e tarefas administrativas, contribuindo para maior eficiência. "No fim das contas, uma campanha política nada mais é do que uma empresa", conclui Simon, sugerindo que a adoção responsável de tecnologia pode aprimorar processos democráticos sem necessariamente comprometê-los.

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