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Data centers no Brasil: entre incentivos e questionamentos globais

Data centers no Brasil: entre incentivos e questionamentos globais
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A estratégia brasileira para atrair centros de dados

Os data centers Brasil tornaram-se foco central nas propostas de governo dos principais candidatos à Presidência. Enquanto instituições especializadas em tecnologia debatem os impactos socioambientais dessas instalações, o país busca posicionar-se estrategicamente no mercado global de processamento de dados e inteligência artificial.

Um data center funciona como um centro de armazenamento e processamento de informações, operando em diferentes modalidades. Os modelos de nuvem comportam o armazenamento de arquivos e operação de serviços digitais, enquanto instalações destinadas à inteligência artificial servem para treinar modelos de linguagem sofisticados e complexos. A relevância desses complexos cresce conforme a demanda por processamento de dados avança globalmente.

Por que o Brasil busca expandir sua infraestrutura computacional

O Brasil enfrenta déficit significativo em capacidade de processamento. Com apenas 218 complexos de data centers, o país ocupa a 12ª posição no ranking global, distante dos Estados Unidos, que concentra mais de 4.700 instalações. Essa diferença reflete diretamente na balança comercial: em 2025, o Brasil registrou déficit de US$ 8 bilhões especificamente em serviços de computação e informação, segundo dados da Brasscom, entidade que representa empresas brasileiras de tecnologia.

A necessidade de processar dados no exterior representa não apenas custos econômicos, mas também dependência tecnológica. Para especialistas como Daniel Cordeiro, professor da Universidade de São Paulo especializado em computação sustentável, expandir a capacidade computacional torna-se imperativo para o desenvolvimento nacional.

Vantagens competitivas: energia renovável como diferencial

O Brasil possui vantagens estruturais que justificam o interesse em atrair data centers Brasil. A matriz energética nacional baseia-se predominantemente em fontes renováveis, como usinas hidrelétricas, eólicas e solares, diferenciando-se radicalmente do modelo americano, que depende largamente de combustíveis fósseis como petróleo e gás natural.

Marina Garrote, diretora de operações do Reglab, consultoria especializada em pesquisa regulatória, destaca esse diferencial: "Com a matriz energética dos EUA, mais data centers significam mais emissões de carbono e conta de luz mais alta para o vizinho. No Brasil, se a expansão for, de fato, baseada em energia eólica e solar, o custo social será um pouco diferente."

Além da questão energética, o Brasil oferece infraestrutura de conectividade global através de uma ampla rede de cabos submarinos de internet que conectam o país a outros continentes. Esse fator, combinado com o mercado interno em expansão, torna o território atrativo para investimentos tecnológicos internacionais.

O Redata: regime tributário com contrapartidas ambientais

Em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, conhecido como Redata. Essa legislação elimina impostos de importação sobre equipamentos utilizados em data centers, mas estabelece exigências compensatórias importantes.

As empresas beneficiárias do regime devem cumprir critérios rigorosos: utilizar exclusivamente energia renovável ou de baixo carbono, limitar consumo de água a 50 mililitros por quilowatt-hora, destinar 10% da capacidade de processamento ao mercado brasileiro e investir 2% do valor dos equipamentos em pesquisa tecnológica nacional. Essas contrapartidas refletem a tentativa de equilibrar atração de investimento com responsabilidade socioambiental.

Propostas dos candidatos para o setor de tecnologia

Existe consenso entre os principais candidatos quanto à importância de atrair data centers Brasil, embora com abordagens diferentes. Lula defende o fomento a empresas brasileiras de inteligência artificial e a criação de versões nacionais de modelos de linguagem, semelhantes ao ChatGPT e Gemini.

Flávio Bolsonaro propõe redução tributária sobre energia destinada a data centers e correlaciona essa expansão à exploração nacional de minerais críticos utilizados na fabricação de chips de inteligência artificial. Ronaldo Caiado, por sua vez, enquadra data centers dentro de uma cadeia integrada de inovação, conectando-os ao desenvolvimento de semicondutores e modelos de linguagem brasileiros.

Renan Santos apresenta proposta ambiciosa: transformar o Brasil no maior exportador global de processamento de dados para modelos de inteligência artificial, com a criação de zonas de regime tributário específico para data centers. Romeu Zema enfatiza a necessidade de ambiente regulatório estável que garanta segurança jurídica para empresas do setor.

A rejeição global e os riscos enfrentados nos EUA

Enquanto o Brasil elabora políticas para atrair essas instalações, contexto internacional diferencia-se drasticamente. Pesquisa Reuters/Ipsos revelou que 64% da população americana discorda da ideia de construir data centers rapidamente no país, considerando negativa essa expansão. Mais especificamente, 57% dos americanos opõem-se à instalação dessas complexos em seus bairros.

A rejeição concentra-se em preocupações ambientais e de consumo de recursos. Data centers demandam quantidades extraordinárias de energia e água para funcionamento, provocando impacto direto em comunidades locais. Em cidades como Frederick, Maryland, e diversas regiões americanas, manifestantes protestam contra a expansão dessas instalações, frequentemente ligadas a empresas de inteligência artificial.

Apesar dessa rejeição, o presidente Donald Trump defende ativamente o avanço do setor. Em reunião recente com executivos de gigantes tecnológicas, incluindo Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sundar Pichai e Jensen Huang, Trump afirmou que data centers "serão muito populares" e que essas "empresas grandes, poderosas, muito ricas e inteligentes farão contribuições enormes para as comunidades."

Desafios de sustentabilidade a serem considerados

Thais Ortega, coordenadora de pesquisa do Reglab, assinala que apesar do consenso favorável entre candidatos brasileiros, alguns pontos do Redata ainda carecem de regulamentação específica. A definição de "energia de baixo carbono" permanece em aberto, podendo permitir o uso de gás natural, combustível fóssil que contraria objetivos ambientais declarados.

Daniel Cordeiro adverte que o Brasil deve aprender com experiências internacionais: "Ainda não chegamos na quantidade de data centers e de problemas que esses outros países já têm. Temos que olhar para os problemas que estão acontecendo nos outros países e nos precaver para que o mesmo não aconteça aqui."

A discussão sobre consumo elevado de água permanece central em debates internacionais. Autoridades brasileiras questionam os impactos ambientais desses projetos, especialmente em regiões com limitações hídricas ou sensibilidades ecológicas particulares.

Perspectivas futuras e próximos passos

Especialistas concordam que políticas para atrair data centers Brasil começarão a produzir efeitos significativos apenas em alguns anos. Contudo, preparação infraestrutural deve começar imediatamente. Marina Garrote observa mudança importante no debate político: "A disputa entre candidatos passou a ser de 'quais' serão as regras sobre a instalação de data centers, e não 'se' eles devem ser instalados."

Cordeiro enfatiza necessidade de equilíbrio: "Precisamos desse parque computacional instalado no Brasil. A questão é: temos que adaptar a nossa infraestrutura de indústria para ela poder se desenvolver, mas devemos tomar cuidado para que o impacto seja medido e não tenhamos um problema no futuro."

O próximo governo herdará decisões regulatórias importantes, particularmente quanto aos parâmetros de sustentabilidade que definirão a viabilidade ambiental dessas instalações. A capacidade de atrair investimento tecnológico sem reproduzir problemas enfrentados em outras nações tornar-se-á teste crucial de governança pública e planejamento estratégico nacional.

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