Gazeta de Portugal

Expansão territorial dos EUA em 250 anos criou divisões duradouras

Expansão territorial dos EUA em 250 anos criou divisões duradouras
Fonte: g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/04/como-expansao-territorial-e-populacional-dos-eua-em-250-anos-transformou-o-pais-em-uma-potencia-marcada-por-divisoes.ghtml

A Transformação de Treze Colônias em Potência Continental

A história da expansão territorial dos EUA representa uma das maiores transformações geográficas e demográficas da história moderna. Desde a declaração de independência da Grã-Bretanha há 250 anos, a nação evoluiu de um grupo modesto de assentamentos dispersos pela costa atlântica para uma superpotência que se estende por um continente inteiro e além das suas fronteiras tradicionais.

Partindo das 13 colônias originais que ocupavam 430 mil milhas quadradas (aproximadamente 1,1 milhão de quilômetros quadrados), o território americano expandiu-se oito vezes, alcançando cerca de 3,7 milhões de milhas quadradas nos dias atuais. Esta expansão territorial não foi gradual nem uniforme, mas marcada por momentos críticos de crescimento explosivo e consolidação estratégica.

O Crescimento Populacional Extraordinário

Paralelamente ao aumento territorial, o crescimento demográfico foi igualmente impressionante. No ano de 1790, quando foi realizado o primeiro censo americano, a população totalizava aproximadamente quatro milhões de habitantes, incluindo pessoas escravizadas. Ao chegar em 2025, este número multiplicou-se para 343 milhões de pessoas, representando um crescimento de 8.475% em pouco mais de dois séculos.

Este aumento populacional não resultou apenas de crescimento natural, mas também de ondas significativas de imigração que trouxeram diversidade cultural e econômica ao país. A proporção de imigrantes na população americana chegou a 14,8% em 2024, equivalente ao pico histórico registrado em 1890, conforme dados do Migration Policy Institute.

As Raízes das Divisões Contemporâneas

Embora os Estados Unidos atuais possam parecer irreconhecíveis para os fundadores que declararam independência há 250 anos, muitas das suas divisões políticas e culturais têm origem naquele período formativo. O historiador Colin Woodard, diretor do Laboratório de Nacionalidade da Universidade Salve Regina, identifica diferentes identidades regionais que emergem das primeiras ondas de colonização.

As Regiões Históricas e Suas Influências

A região que Woodard denomina "Yankeeland", no norte, originou-se dos colonos puritanos que fugiram da perseguição religiosa europeia, posteriormente reforçada por imigrantes alemães e escandinavos. Esta região desenvolveu uma visão mais pluralista e aberta à diversidade.

A zona central, conhecida como "Grande Apalaches", foi inicialmente habitada por escoceses e irlandeses com forte espírito independentista. A sua perspectiva política, moldada pela experiência de opressão nas ilhas britânicas, desenvolveu profunda desconfiança em relação à autoridade governamental. Para estes povos, a liberdade significava maximizar a autonomia individual, contrariamente à filosofia ianque predominante na Nova Inglaterra.

O Sul profundo, por sua vez, constituiu-se como uma sociedade oligárquica e hierárquica, formada por proprietários de terras, muitos dos quais haviam migrado de plantações escravistas do Caribe. Esta estrutura social deixaria marcas duradouras na região.

O Conceito do Destino Manifesto e Seus Conflitos

Durante o primeiro século completo de existência dos Estados Unidos, a nação implementou uma estratégia deliberada de apagamento das culturas indígenas que ocuparam o território por séculos antes da chegada dos europeus. À medida que o país expandia-se rumo ao oeste, este movimento adquiriu dimensão ideológica própria.

Muitos americanos passaram a acreditar no chamado "destino manifesto" – a noção de que era incumbência da nação expandir-se não apenas até o Oceano Pacífico, mas por todo o Hemisfério Ocidental. Esta filosofia justificou inúmeras campanhas expansionistas e conflitos territoriais.

A expansão territorial contínua criou novos pontos de convergência e choque cultural. O interior ocidental, com sua paisagem árida e hostil, atraiu indivíduos com visões individualistas semelhantes às do povo dos Apalaches. Contrastando, a costa do Pacífico acolheu comerciantes e marinheiros do nordeste americano, cujos valores urbanos frequentemente entravam em conflito com o ethos das comunidades rurais do interior.

As Ondas Migratórias e Suas Repercussões

Embora os Estados Unidos tenham praticamente cessado sua expansão geográfica no final do século 19, a população continuou crescendo dramaticamente, impulsionada principalmente pela imigração internacional. A primeira onda migratória significativa começou na década de 1840 e estendeu-se até 1889, trazendo aproximadamente 14 milhões de pessoas, predominantemente do norte e oeste europeu.

A segunda onda, com mais de 18 milhões de migrantes originários do sul e leste europeu, ocorreu entre 1890 e a década de 1920. Cada nova leva de imigrantes provocou reações defensivas dos americanos estabelecidos, que temiam perda de empregos e ameaça ao seu modo de vida tradicional.

Estas tensões resultaram em legislação restritiva, como a Lei de Exclusão Chinesa e, posteriormente, a Lei de Imigração de 1924, que reduziu drasticamente os fluxos migratórios – redução tão severa que marcou uma curvatura nítida nos gráficos de crescimento populacional americano daquele período.

A Imigração Contemporânea

A onda migratória mais recente iniciou-se na década de 1960, quando as restrições foram suspensas. Desde então, mais de 70 milhões de imigrantes entraram nos EUA, muitos provenientes da Ásia e América Latina, incluindo aproximadamente 18 milhões apenas do México. De acordo com especialistas, a imigração foi responsável por 84% do crescimento populacional total dos EUA em períodos recentes.

As Divisões Ideológicas Refletidas nos Mapas Eleitorais

Na era moderna, as divisões originadas nestes diferentes contextos históricos manifestam-se claramente nos mapas eleitorais presidenciais americanos. Os "estados vermelhos", dominados pelos republicanos, concentram-se no sul e no interior ocidental, caracterizados pelo conservadorismo e desconfiança da intervenção governamental. Os "estados azuis", controlados pelos democratas, localizam-se no nordeste e na costa do Pacífico, refletindo maior apoio ao liberalismo e à intervenção estatal.

O conflito ideológico entre estas regiões tem raízes profundas. No século 19, os líderes sulistas pressionavam pela expansão territorial com inclusão de novos estados escravistas para manter o poder político nacional, pressão que finalmente resultou na Guerra Civil. Posteriormente, as ondas de imigração do século 20 reforçaram o poder político do norte industrializado.

A Inversão Contemporânea da Dinâmica Histórica

Nas últimas décadas, porém, a dinâmica geográfica inverteu-se significativamente. Imigrantes e migrantes internos são agora atraídos para o sul, particularmente para cidades economicamente dinâmicas do Texas e Flórida. Simultaneamente, o crescimento da imigração ilegal na fronteira sul dos EUA amplificou as tensões políticas e sociais.

Este realinhamento geográfico de poder fornece contexto crucial para compreender o conservadorismo populista contemporâneo, que combina apelos por controle fronteiriço mais rigoroso com nostalgia pela expansão territorial do século 19.

O Retorno do Expansionismo Americano

Nas suas promessas de campanha e durante seu retorno à Casa Branca, o presidente Donald Trump expressou aspirações de expandir as fronteiras físicas dos EUA. Ele mencionou a possibilidade de adquirir a Groenlândia, repatriar o Canal do Panamá e incorporar o Canadá e Venezuela como potenciais estados americanos.

Simultaneamente, Trump cumpriu sua promessa de campanha de promover deportações em massa, refletindo uma priorização da limitação imigratória sobre a abertura às ondas migratórias que caracterizaram o século 20 americano.

Um Espelho Invertido da História

A atual estratégia política representa, em muitos aspectos, uma inversão do trajeto histórico dos últimos 250 anos. Os Estados Unidos passaram seu primeiro século expandindo-se fisicamente, posteriormente abandonou esta ambição e focalizou-se – frequentemente com hesitação – em abrir as suas portas para imigrantes. Agora, a agenda política de restauração nacional propõe expandir novamente as fronteiras físicas enquanto restringe a entrada de pessoas.

Os proponentes desta visão argumentam que o caráter fundamental da nação corre risco de alteração permanente. A questão central que permanece em aberto, contudo, reflete interrogações essenciais sobre a identidade americana: será a nação definida por valores cívicos inclusivos, ou por conexões de sangue e descendência ancestral?

Nesta perspectiva histórica abrangente, 250 anos representam apenas um breve instante na história mundial, um piscar de olhos. Porém, para os Estados Unidos, estes 25 décadas provaram-se transformadores, mesmo mantendo constantes as divisões profundas no cerne da nação e as preocupações persistentes com o seu futuro coletivo.

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