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Documentário 'Elis & eu' explora o lado materno da lendária cantora Elis Regina

Documentário 'Elis & eu' explora o lado materno da lendária cantora Elis Regina
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Um olhar íntimo sobre a maternidade de Elis Regina

A produção cinematográfica "Elis & eu" traz ao público uma perspectiva completamente diferente sobre a icônica Elis Regina, focando não na celebridade reconhecida em toda a nação, mas na figura materna que dedicou suas emoções aos filhos. O documentário, que estreia em 25 de agosto no canal Universal+, sob a direção de André Buchatsky, baseia-se no relato tocante do filho primogênito João Marcello Bôscoli, cujas memórias foram compiladas no livro "Elis e eu – 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe" (2019).

A narrativa central do filme busca reconstituir o universo particular de Elis Regina com seus três filhos: João Marcello, Pedro Mariano e Maria Rita. Durante aproximadamente 80 minutos, o espectador é levado a compreender como era conviver com uma mulher que, simultaneamente, era uma artista de renome internacional e uma mãe dedicada em seu lar localizado na Serra da Cantareira, em São Paulo.

A estrutura do roteiro e as múltiplas vozes que compõem a história

André Buchatsky e André Rodrigues construíram o roteiro através de uma abordagem multifacetada que combina depoimentos diretos, imagens de arquivo autêntico, dramatizações cuidadosas e números musicais executados especialmente para a produção. João Marcello Bôscoli funciona como o eixo narrativo principal, ancorando toda a experiência cinematográfica com suas reflexões pessoais e profundas sobre a infância vivida ao lado de Elis Regina.

Complementando as falas do filho primogênito, o documentário inclui depoimentos de Pedro Mariano, o filho do meio, que compartilha lembranças de anos de convivência compartilhando quartos. Também participam da narrativa Celina Silva, secretária pessoal que acompanhava a cantora diariamente; a cantora Wanderléa; Natan Marques, guitarrista e diretor musical responsável pelo último show de Elis Regina; Ione Cirilo, amiga próxima da artista; e Julio Maria, biógrafo reconhecido de Elis Regina. Maria Rita, a filha caçula, não gravou depoimento original, mas sua voz emerge através de trechos de uma entrevista televisiva de 2016.

Elis Regina revelada como mãe: carinho, rigor e dedicação

Os relatos coletados constroem um retrato multidimensional de Elis Regina em seu papel maternal. Todos os entrevistados convergem em descrever uma mulher extremamente carinhosa, porém, quando necessário, rigorosa e firme. O documentário ilustra sua capacidade de disciplina através de anedotas que demonstram sua preocupação genuína com a educação dos filhos, como a situação em que confrontou João Marcello, aos seis anos, depois que este pegou dinheiro de sua bolsa.

Além da educação formal, Elis Regina expressava seu amor através de ações cotidianas. Pedro Mariano ressalta a importância de exercitar a memória em relação aos anos vividos com a mãe, destacando como ela frequentava reuniões escolares, cultivava uma horta e cozinhava com uma dedicação que impressionava todos quantos provavam suas refeições. Quando recebia elogios pela qualidade da comida, Elis brincava: "Vocês tinham que me ver cantando".

O peso da profissão e a compensação amorosa

Segundo a amiga Ione Cirilo, Elis Regina sentia-se frequentemente em débito com os filhos devido às demandas de sua carreira profissional. A cantora lançava um álbum a cada ano e mantinha uma agenda repleta de apresentações espalhadas por todo o território nacional. Para compensar essas ausências inevitáveis, ela canalizava toda sua energia em proporcionar uma educação amorosa mas ao mesmo tempo rigorosa. "Ela amava esses filhos, ela disciplinava esses filhos, ela tomava conta deles, ela orientava, ela castigava quando precisava...", enumera Ione Cirilo em seu depoimento.

As dramatizações e a representação artística de Elis Regina

As dramatizações integradas ao filme servem como elemento de reconstrução visual do passado, contando com a atuação de Antônio Menqui e Vitor Constantino representando João Marcello Bôscoli em diferentes fases de sua infância. A atriz Lilian Menezes, responsável por dar vida a Elis Regina nas cenas dramatizadas, traz credibilidade ao papel graças à sua experiência prévia com o personagem no espetáculo teatral "Elis, a musical".

Um destaque particular merece a execução da música "Madalena" (composição de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza de 1970), interpretada por Lilian Menezes. Embora o número musical careça de função estrutural clara na narrativa, a qualidade técnica de sua execução impressiona ao se aproximar do registro vocal original de Elis Regina, mantendo a autenticidade da caracterização.

Vozes do passado: Elis Regina sobre a maternidade

O documentário incorpora trechos extraídos de entrevistas televisivas que Elis Regina concedeu durante sua vida, onde ela própria reflete sobre a experiência de ser mãe. Essas falas originais funcionam como um diálogo entre o passado e o presente, permitindo que a própria artista comente sobre seus sentimentos e dilemas em relação à maternidade. Essa escolha criativa amplia a profundidade emocional da narrativa, criando um espaço onde a voz da própria Elis Regina eco através do tempo.

A tragédia que encerrou uma era

Todos os relatos e dramatizações convergem cronologicamente para 19 de janeiro de 1982, data que marcou o falecimento de Elis Regina aos 36 anos de idade. Nessa data, o mundo particular construído por João Marcello, Pedro Mariano e Maria Rita desmoronou completamente, forçando os três a reconstruir suas vidas sem a presença física da matriarca que fornecia "superpoderes" para toda a família. É com essa reflexão melancólica que João Marcello Bôscoli encerra sua participação no documentário.

Conclusão: um retrato humanizado de uma figura lendária

"Elis & eu" representa uma oportunidade única de compreender Elis Regina para além de seu legado artístico monumental. Através de uma abordagem sensível e bem estruturada, o documentário descortina um pouco dos bastidores da vida privada da cantora, expandindo significativamente o relato íntimo e pessoal apresentado no livro de João Marcello Bôscoli. O resultado é uma obra que honra tanto o artista quanto a mãe, mostrando como essas duas identidades coexistiram numa única mulher extraordinária.

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