Banco Master falsificou documentos com Word e códigos, revela PF

Banco Master falsificava documentos com tecnologia de escritório
A Polícia Federal identificou um sofisticado esquema de fraude no Banco Master que funcionava como uma verdadeira linha de montagem digital. O Banco Master documentos falsos era produzido através de ferramentas comuns, como Microsoft Word e Adobe Acrobat, combinadas com códigos de programação desenvolvidos pela área de tecnologia da instituição. A operação tinha como objetivo criar a aparência de legitimidade para uma carteira de créditos consignados fictícia atribuída à Tirreno Consultoria.
Segundo a investigação, o processo envolvia várias etapas coordenadas: extração de dados reais de clientes dos sistemas internos, produção em massa de documentos utilizando mala direta, separação de páginas de assinaturas por programas em C#, assinatura digital dos arquivos e, por fim, reunião de todas as peças em arquivos PDF únicos. A operação resultou em R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito que foram vendidas ao Banco de Brasília (BRB).
A extração de dados e a produção em massa
O primeiro passo da fraude no Banco Master envolvia a coleta de dados reais de clientes que já haviam realizado operações legítimas. Funcionários da instituição acessaram informações armazenadas nos sistemas internos, inclusive relacionadas ao CredCesta, um produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, o levantamento de CPFs. O analista reuniu os CPFs em um arquivo chamado cpf_cessao.csv e, no dia seguinte, executou consultas no banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx, que foi enviada por e-mail no dia 3 de julho às 16h57.
Essa planilha continha informações cadastrais dos clientes, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Os próprios técnicos envolvidos identificavam problemas na base de dados utilizada. Em mensagens internas, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados, reconhecendo que havia inconsistências e que a lista estava "meio furada".
Microsoft Word para gerar 2.700 procurações
Com os dados obtidos, a próxima etapa envolvia a produção das procurações. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word para executar essa tarefa em escala. A ferramenta permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada registro.
No caso do Banco Master, Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta de trabalho Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras. Esse procedimento permitiu gerar 2.700 procurações em lote no dia 20 de junho de 2025. A tecnologia não era usada apenas para armazenar documentos, mas para reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de pessoas.
Programação em C# para separar assinaturas
A produção dos documentos também envolveu a área de tecnologia do Banco Master de forma mais complexa. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram do desenvolvimento de aplicações em C# registradas no repositório GitHub da instituição. Uma das funções criadas tinha a finalidade específica de extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, justamente a página de assinatura dos documentos originais.
A perícia identificou um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, que continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento. Essas páginas podiam ser reaproveitadas na montagem de novos conjuntos de documentos, demonstrando um nível ainda mais sofisticado de automatização da fraude.
Remoção de datas e informações reveladoras
Um dos aspectos mais preocupantes do esquema era a tentativa deliberada de ocultar informações que poderiam revelar quando os documentos realmente foram criados. Quando os documentos apresentavam informações reveladoras de sua origem ou data real de formalização, funcionários atuavam para apagar ou alterar esses dados.
Em um caso analisado pela perícia, um Termo de Consentimento que trazia originalmente a data de 24 de fevereiro de 2023 teve esse registro removido em julho de 2025. As mensagens internas mostram essa intenção claramente. Em conversa no Teams de 20 de junho, Allan Machado pediu a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse as informações de data e hora, dizendo explicitamente: "e precisamos excluir a data".
No Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal, o documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em uma edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, esse campo foi apagado visualmente. Porém, a perícia identificou que a alteração não eliminava todos os vestígios digitais analisáveis. O documento deixava de mostrar a data original na imagem, mas outros registros do arquivo e da assinatura digital permitiam reconstruir a cronologia real.
O contraste entre datas escritas e registros digitais
A tentativa de ocultar as datas reais dos documentos encontrou um obstáculo significativo: os registros criptográficos das assinaturas digitais. Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust, e em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa para assiná-los. Foram separados 675 Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) para cada um de quatro operadores.
As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader usando o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado. Foi justamente nessa etapa que a perícia encontrou uma das evidências mais fortes da manipulação. Em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB indicava uma data anterior, por exemplo, 21 de janeiro de 2025. Já o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que aquele arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
Alterações em comprovantes bancários
A tentativa de apagar rastros no Banco Master chegou também aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. O problema era que os documentos apresentavam informações que vinculavam as operações ao histórico original.
Allan queria retirar três elementos: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações que apareciam no histórico estava a expressão "LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX". A conversa mostra que havia dificuldade em fazer isso em escala, pois Romy explicou que conseguia alterar um ou outro documento manualmente, mas seria impossível fazer o mesmo em 2.700 comprovantes.
Reunião dos documentos em arquivos únicos
Depois de produzidas e alteradas as diferentes peças, elas precisavam ser apresentadas como um conjunto documental coeso. Allan utilizou o PDF24 para juntar os arquivos em um único PDF por operação. A montagem reunia documentos como a CCB, a procuração e o Termo de Consentimento com a informação de data já retirada.
Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede chamadas Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras. Assim, diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente eram transformados em um único dossiê que tinha a aparência de uma operação legítima.
Documentação chegava à cúpula do banco
A investigação também identificou que a documentação falsificada não ficava restrita aos funcionários responsáveis por sua montagem. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix de Oliveira Neto um "kit dos 300 com assinatura digital". Alberto respondeu que providenciaria e, minutos depois, informou que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura.
Na sequência, foram enviados arquivos contendo o conjunto de documentos. Esse repasse demonstra que a operação envolvia a cúpula da instituição e não era uma atividade isolada de alguns funcionários.
Preocupação com auditorias externas
As mensagens reunidas pela investigação mostram ainda que a preocupação não era apenas produzir os documentos falsos, mas também explicar as inconsistências caso fossem questionadas. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações. A resposta de Alberto foi direta: "esse tem que falar que foi erro operacional na selecao".
Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. Fabrizio afirmou que a base já havia sido enviada anteriormente, mas apresentava um erro que precisaria ser corrigido.
Cronologia de um esquema estruturado
O conjunto de evidências descrito pela Polícia Federal revela uma cadeia organizada e estruturada: dados de clientes eram extraídos dos sistemas internos, esses dados alimentavam documentos produzidos em escala, páginas de assinaturas eram separadas, Cédulas de Crédito Bancário eram assinadas digitalmente, datas e informações reveladoras de origem eram removidas, e finalmente as diferentes peças eram reunidas em arquivos únicos.
A tecnologia permitia acelerar praticamente todas essas etapas. A mala direta do Word produzia procurações em lote, as consultas aos bancos de dados reuniam informações cadastrais, os programas em C# automatizavam o tratamento dos PDFs, o Acrobat era utilizado para as assinaturas digitais e o PDF24 reunia os documentos finais. O objetivo era sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados fictícia, mas a própria estrutura digital deixava vestígios que permitiram identificar a fraude.
