Apple bloqueia sugestões de termos políticos no teclado iOS

Apple restringe sugestões de expressões políticas no teclado do iPhone
A Apple mantém uma lista não divulgada com dezenas de milhares de palavras e expressões em diferentes idiomas que o teclado do iOS não completa automaticamente nem permite digitar deslizando o dedo sobre as teclas. A descoberta revelada por um pesquisador nesta sexta-feira (6) expõe como a empresa norte-americana controla as sugestões que aparecem aos usuários de iPhone em todo o mundo.
Segundo investigações do pesquisador Derik Kauffman, as sugestões de teclado iPhone são gerenciadas através de um mecanismo que bloqueia determinadas expressões consideradas ofensivas ou politicamente controversas. Embora os usuários possam digitar manualmente esses termos em e-mails e mensagens de texto, eles não aparecem nas sugestões automáticas nem podem ser inseridos pela digitação por gestos, um recurso que permite escrever deslizando o dedo de uma letra para outra.
Como funciona a restrição nas sugestões de teclado iPhone
O mecanismo de filtragem das sugestões de teclado iPhone opera de forma discreta, afetando a experiência de milhões de usuários simultaneamente. Kauffman afirmou que essa forma de controle representa "uma forma muito sutil de censura", já que na escala em que a Apple opera, uma pequena intervenção pode produzir grande impacto na comunicação dos usuários.
A lista descoberta contém aproximadamente 100 mil termos, sem contar os caracteres chineses, e varia de acordo com o idioma. A maioria das palavras e expressões sinalizadas é vulgar, ofensiva ou relacionada a drogas, sexo ou violência. Contudo, algumas possuem clara conotação política, como "Trump ditador" e "Joe sonolento", termos que não podem ser digitados facilmente através do recurso de gestos no teclado.
Exemplos de expressões restritas nas sugestões de teclado iPhone
Entre os termos que não aparecem nas sugestões automáticas do iOS estão expressões como "conspiração da direita", "independência do Tibete" e "Irlanda unificada". A restrição nas sugestões de teclado iPhone também abrange diferentes contextos linguísticos, com variações conforme o idioma utilizado.
Em hindi, o teclado não permite digitar por gestos "Modi fanfarrão" ou "Rahul é Pappu", provocações dirigidas respectivamente ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e a seu principal adversário político, Rahul Gandhi. No teclado em francês, usuários não conseguem digitar por gestos a expressão "imigração alta demais", enquanto no teclado hebraico o mesmo ocorre com "territórios ocupados".
Inconsistências na aplicação das restrições
O pesquisador Kauffman identificou inconsistências significativas na aplicação das restrições nas sugestões de teclado iPhone. Como exemplo, é possível digitar por gestos "ler pornografia", mas não "ler pornografia gay", demonstrando critérios desiguais na filtragem de termos relacionados.
Testes realizados por agências de notícias como Reuters confirmaram essas limitações. Ao tentar escrever "Irlanda unificada" ou "independência do Tibete", o teclado frequentemente apresentava "Islândia unificada" ou "independências tibetanas". A tentativa de digitar "homem branco" resultava em "homem mean", uma expressão similar sem o mesmo sentido, enquanto "homem vermelho" e "homem azul" podiam ser escritos sem dificuldade.
Resposta da Apple sobre as restrições
Em comunicado, a Apple afirmou que os usuários de iPhone podem digitar palavras ou frases específicas e ignorar as sugestões automáticas. Segundo a empresa, o teclado foi configurado para evitar sugestões que possam ser consideradas inadequadas ou ofensivas. No entanto, a empresa não respondeu diretamente aos questionamentos sobre o tamanho da lista, sua composição e os motivos para sinalizar determinadas expressões políticas.
A empresa não forneceu explicações sobre os critérios utilizados para decidir quais termos deveriam ser incluídos nas restrições nas sugestões de teclado iPhone, nem confirmou a existência dessa lista abrangente de palavras filtradas.
Como a lista foi descoberta
Kauffman contou que encontrou a lista em setembro, após perceber falhas na digitação por gestos com expressões como "garoto mau" e "homem branco", mas não com "garota má" ou "homem negro". O pesquisador utilizou ferramentas de inteligência artificial, incluindo Codex da OpenAI e Claude Code da Anthropic, para investigar o problema.
Durante a análise, encontrou uma lista de termos armazenada no sistema operacional da Apple. Matt Suiche, engenheiro da Tolmo, empresa de cibersegurança especializada em sistemas de inteligência artificial, conseguiu recuperar a mesma lista de forma independente e confirmou que os resultados eram quase idênticos aos de Kauffman.
Impacto e preocupações com transparência
A descoberta das restrições nas sugestões de teclado iPhone levanta questões sobre como a comunicação humana pode ter sido influenciada e filtrada durante anos dentro de aplicativos de mensagens. Pesquisadores apontam que a Apple permaneceu sem ser identificada nesse controle durante anos.
David Greene, consultor jurídico sênior da Electronic Frontier Foundation, organização que defende as liberdades civis no ambiente digital, afirmou que embora considere a lista de palavras "assustadora" e questione os critérios adotados pela Apple, o recurso pode ser útil para evitar sugestões indesejadas. Porém, Greene enfatizou que "se a empresa vai fazer isso, os usuários precisam estar muito bem informados e ter alguma possibilidade de personalizar o recurso. Isso não deveria ser secreto."
Precedentes similares
Assim como outras empresas de tecnologia, a Apple já enfrentou problemas com recursos de previsão de texto. O preenchimento automático do Google também tem sido alvo de críticas por causa dos termos sugeridos nas buscas. No ano passado, a Apple chamou atenção depois que usuários relataram que ao ditar a palavra "racista" em seus iPhones, o termo "Trump" aparecia rapidamente na tela. Na ocasião, a empresa afirmou tratar-se de um erro que havia sido corrigido.
No início desta semana, um administrador de sistemas da Noruega também descobriu, de forma independente, uma lista de palavras sinalizadas pela Apple, entre elas "al-Qaeda", "Auschwitz" e "Hooters". No entanto, a descoberta de Kauffman é a primeira vez que uma lista mais ampla de expressões consideradas sensíveis é revelada publicamente.
