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Venezuela e Cuba enfraquece relações após prisão de Maduro

Venezuela e Cuba enfraquece relações após prisão de Maduro
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A transformação das relações entre Venezuela e Cuba

A relação entre Venezuela e Cuba enfraqueceu significativamente após os eventos de janeiro de 2026, quando Nicolás Maduro foi capturado em uma operação militar americana. Pela primeira vez em duas décadas, Cuba não foi mencionada no discurso de um representante venezuelano durante o debate da Assembleia Geral das Nações Unidas, um indicador simbólico da mudança profunda que ocorria entre os dois países que outrora foram descritos como "uma mesma nação".

A ausência de referências marca um contraste impressionante com pronunciamentos anteriores. Em 2009, Hugo Chávez mencionou Cuba 11 vezes em seu discurso na mesma assembleia, enquanto Nicolás Maduro o fez 13 vezes em 2015. A presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, escolheu não fazer uma única menção à ilha caribenha, refletindo a complexidade das relações bilaterais naquele momento.

Do reconhecimento oficial ao enfraquecimento

Nas semanas seguintes à prisão de Maduro, Rodríguez afirmou publicamente na Assembleia Nacional que a Venezuela tinha o direito de manter relações diplomáticas com múltiplos países, incluindo Cuba. No entanto, quase nove meses depois, sinais claros de deterioração surgiram quando Carlos Fernández de Cossío, vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, declarou à Bloomberg que a Venezuela era "um país amigo. Aliado é uma palavra muito forte".

Esta foi a primeira admissão oficial cubana de que a "relação estratégica" construída inicialmente por Hugo Chávez e Fidel Castro havia se deteriorado. A mudança de linguagem de "aliado" para "amigo" representava um reconhecimento tácito de uma transformação fundamental nas dinâmicas diplomáticas entre os dois países.

As raízes profundas da aliança estratégica

A aproximação entre Venezuela e Cuba começou quando Chávez chegou ao poder em 1999, iniciando uma relação que se aprofundaria continuamente. O arranjo inicial envolvia a venda de petróleo venezuelano à ilha em condições preferenciais, enquanto Cuba enviaria profissionais para atuar em saúde, educação, cultura e esporte na Venezuela.

Na área de saúde, a presença cubana ganhou visibilidade através do programa Barrio Adentro, que empregava milhares de médicos cubanos para fornecer atendimento básico às comunidades carentes. O programa enfrentou resistências similares ao brasileiro Mais Médicos, com protestos de médicos locais contra a chegada de profissionais cubanos.

A dimensão militar e de segurança da cooperação

Embora os médicos tenham sido o rosto mais visível da cooperação, especialistas apontam a atuação de agentes de segurança cubanos nos órgãos de inteligência venezuelanos como o aspecto mais significativo da relação. Frank Mora, professor de relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida, explicou à BBC News Mundo que a presença mais importante de Cuba na Venezuela era na área de contrainteligência.

Segundo Mora, após abril de 2002, Fidel Castro começou a enviar agentes para proteger Chávez e evitar conspirações nas Forças Armadas. "Cuba se infiltrou profundamente nas Forças Armadas e nos órgãos de segurança do Estado venezuelano. A Venezuela chegou a adotar a doutrina militar cubana da 'guerra de todo o povo'. Algumas pessoas chegaram a falar em 'cubanização' das Forças Armadas Bolivarianas da Venezuela", afirmou o especialista.

Os agentes cubanos não apenas treinavam as forças de contrainteligência venezuelanas, mas também participavam e interferiam em atividades de contrainteligência e repressão. Ex-integrantes dos órgãos de segurança e pessoas presas por razões políticas relataram a presença de agentes cubanos em ações de inteligência e repressão, principalmente através da Direção Geral de Contrainteligência Militar (Dgcim).

A revelação durante a captura de Maduro

Durante anos, Cuba negou oficialmente a presença de agentes de segurança em solo venezuelano. No entanto, a captura de Maduro em 3 de janeiro de 2026 parece ter desmentido essa posição. Pelo menos 32 cubanos morreram durante a operação americana, incluindo integrantes das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR) e do Ministério do Interior.

Entre os óbitos havia dois coronéis, um tenente-coronel, quatro majores e três capitães, indicando que exerciam funções de segurança muito além de tarefas operacionais básicas. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou após a operação que Cuba "basicamente tentou colonizar a Venezuela na área de segurança".

A descubanização dos órgãos de segurança

Após a prisão de Maduro e a ascensão de Rodríguez, os Estados Unidos assumiram o controle da venda de petróleo venezuelano e suspenderam o fornecimento desse recurso a Cuba. Informações publicadas pela agência Reuters baseadas em 11 fontes indicavam que agentes de segurança cubanos estavam sendo retirados da Venezuela sob pressão americana sobre Rodríguez.

Segundo as fontes, funcionários cubanos foram afastados de seus cargos na Direção Geral de Contrainteligência Militar. Especialistas americanos confirmaram que a "descubanização" dos órgãos de segurança do Estado venezuelano era uma prioridade para a inteligência americana, e sinais sugerem que tiveram êxito nessa iniciativa.

Um porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que desde 3 de janeiro havia ocorrido "uma mudança drástica nas relações entre EUA e Venezuela", transformando um país que priorizava relações com adversários ocidentais em uma nação com "democracia no horizonte".

Mudanças na presença médica cubana

A presença de médicos cubanos na Venezuela apresenta um padrão diferente do observado na segurança. De acordo com investigações da Archivo Cuba, uma organização de direitos humanos, as missões médicas cubanas continuam funcionando em pelo menos 22 Estados da Venezuela, apesar das transformações políticas.

No entanto, o número de médicos cubanos que abandonaram o programa aumentou significativamente, com profissionais optando por fugir para a Colômbia ou Guiana, ou permanecendo escondidos na Venezuela. Essa situação contrasta com a retirada mais sistemática de agentes de segurança.

O distanciamento diplomático

A embaixada de Cuba na Venezuela permanece ativa, mas registros públicos mostram uma notável ausência de encontros entre o embaixador e os membros do núcleo central do poder do governo Rodríguez, composto por ela, seu irmão Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional) e o ministro do Interior, Diosdado Cabello.

Os comunicados do Ministério das Relações Exteriores cubano sobre a Venezuela documentam apenas encontros com governadores, prefeitos e deputados, não com os principais tomadores de decisão. Quanto às viagens a Havana, que antes eram frequentes entre autoridades do governo Maduro, Cuba divulgou apenas uma em 2026, realizada em abril pelo ministro da Comunicação e Informação, Miguel Pérez Pirela.

A mudança radical de alianças geopolíticas

A aliança entre Venezuela e Cuba nasceu da relação pessoal entre Chávez e Castro e se consolidou em torno de uma ideologia "anti-imperialista" e de oposição ao capitalismo e aos Estados Unidos. Sob esse framework ideológico, o governo Rodríguez operou uma mudança radicalmente oposta ao se aproximar de Donald Trump.

Simultaneamente, mantém suspenso o fornecimento de petróleo a Cuba, em um momento em que a ilha enfrenta uma crise energética aguda. A mudança foi tão profunda que ativistas cubanos nas redes sociais a chamaram de "traição".

Reações contidas de Cuba

Apesar dessa transformação radical, o governo de Díaz-Canel não criticou publicamente Rodríguez, mantendo uma postura surpreendentemente contida em contraste com seu histórico de ataques verbais veementes aos adversários políticos. A reação mais dura veio de um comentário do ministro da Economia e do Planejamento de Cuba, Joaquín Alonso Vázquez, no Facebook, onde sugeriu que Rodríguez havia cometido uma "traição".

Especialistas como Javier Corrales, professor do Amherst College, sugerem que Cuba sente falta da cooperação petrolífera venezuelana, mas não vê a Venezuela como inimiga. Corrales acredita que "não houve uma ruptura que implique necessariamente hostilidade", e que Cuba, diante das circunstâncias, considera o resultado como aceitável.

Estratégia de sobrevivência cubana

Frank Mora destaca que Cuba está concentrada em sua própria crise econômica e segurança alimentar, enquanto compreende bem a pressão dos Estados Unidos sobre o governo Rodríguez. Nesse contexto, atacar a Venezuela não traria benefícios estratégicos para a ilha.

Nícmer Evans, cientista político venezuelano e editor da plataforma Punto de Corte, destaca que Cuba historicamente busca preservar laços com aliados atuais, antigos e potenciais. "Eles sempre vão tentar manter a relação ou recuperá-la. Talvez não consigam chegar agora ao núcleo de poder, mas não acho que tenham abandonado os vínculos com setores do chavismo", afirmou.

Essa estratégia de manter portas abertas pode ser útil considerando que uma mudança política na Venezuela não está garantida. Uma eventual transição aparentemente depende da disposição do governo Trump em promovê-la. Cuba e Venezuela poderiam estar tentando ganhar tempo e resistir até uma possível mudança de governo em Washington, momento em que teriam oportunidade de restabelecer os laços históricos.

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