Gazeta de Portugal

Tráfico de ovos de aves nativas movimentou R$ 90 milhões

Tráfico de ovos de aves nativas movimentou R$ 90 milhões
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Operação internacional desmantelada pela Polícia Federal

O tráfico de ovos de aves nativas brasileiras ganhou destaque em uma importante operação coordenada pela Polícia Federal em conjunto com autoridades policiais europeias. A rede criminosa internacional que operava esse tráfico de ovos de aves nativas movimentou aproximadamente R$ 90 milhões ao longo de quase duas décadas. A investigação revelou um esquema sofisticado de contrabando envolvendo suspeitos em múltiplos países.

A organização criminosa atuava desde há aproximadamente 20 anos, realizando cerca de 120 viagens internacionais com uma média de 20 ovos transportados por trajeto. O período de maior intensidade de atividades ocorria entre agosto e março, coincidindo com a estação reprodutiva das aves na Mata Atlântica. Cada ovo era comercializado por valores que chegavam a R$ 6 mil no mercado internacional.

Início da investigação no Aeroporto do Galeão

A investigação sobre esse tráfico de ovos de aves nativas começou quando a suíça Erika Zumofen-Göllesz foi detida no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. A suspeita tentava embarcar de volta ao seu país com 24 ovos das espécies papagaio-de-cara-roxa e papagaio-charão enrolados em meias de seda e escondidos junto ao corpo. Essas aves são exclusivas do Brasil e encontram-se em risco crítico de extinção.

Zumofen-Göllesz já havia realizado 31 viagens da Suíça ao Brasil, mantendo um padrão consistente de estadias breves com passagens por Curitiba e retornos através do Aeroporto de Guarulhos. Após prestar depoimento, a suspeita foi liberada, mas a Polícia Federal apreendeu seu celular, ação que se revelaria determinante para desmantelar toda a organização.

Desvendamento da rede criminosa através de evidências digitais

Os investigadores encontraram no telefone apreendido chamadas telefônicas para Hans Zehnder, proprietário de dois grandes viveiros de pássaros na Suíça, e contatos frequentes com a família de Marco Schwarz, residente em Curitiba. Esse mapeamento de comunicações permitiu aos agentes federais identificar a estrutura completa da quadrilha.

Marco Schwarz, sua esposa Rita Lydia e a filha Cláudia Fabiana operavam uma loja de equipamentos para captura e manejo de animais instalada na residência da família. Eram os principais suspeitos de fornecer os ovos aos traficantes. Investigações indicam que a carga era extraída de ninhos localizados em áreas de reserva e unidades de conservação em Bocaiúva do Sul, no Paraná.

Prisões na Europa e operações simultâneas no Brasil

A Polícia Federal monitorou o embarque de Marco Schwarz em Curitiba com destino a Zurique. Dois agentes federais foram enviados à Europa, onde trabalharam em cooperação com as polícias suíça e espanhola. Os investigadores acompanharam os movimentos de Marco Schwarz e Hans Zehnder até a Ilha Gran Canária, na Espanha.

Ambos foram presos em flagrante dentro de um quarto de hotel na ilha. No local, a polícia apreendeu o equivalente a R$ 260 mil em cédulas de euros e francos suíços. Marco Schwarz e Hans Zehnder foram transferidos para Madri, onde aguardam o processo de extradição para o Brasil. A Polícia Nacional Espanhola mantém investigações contínuas sobre documentação e telefones apreendidos para identificar o destinatário final na ilha e possíveis cúmplices.

Simultaneamente, a Polícia Federal executou mandados em Curitiba. Rita Lydia Schwarz e Cláudia Fabiana Schwarz foram presas na residência e loja da família. Os agentes apreenderam 61 animais empalhados e 130 partes de animais, incluindo crânios e dentes de espécies ameaçadas como o mico-leão-de-cara-dourada e primatas colombianos. Essas condutas enquadram-se na Lei de Crimes Ambientais. A suíça Erika Zumofen-Göllesz permanece como foragida.

Impacto na sobrevivência dos embriões durante o transporte

Os transportes clandestinos de ovos causam a morte da maioria dos embriões. A bióloga Fernanda Guida, do Zoológico de São Paulo, explicou que a incubação é um processo delicado exigindo controle rigoroso de temperatura e umidade, resultando na morte de muitos embriões durante o trajeto. Dos 24 ovos apreendidos com a suspeita suíça no Galeão, apenas 9 papagaios conseguiram nascer.

Outras apreensões recentes relacionadas ao tráfico

A fiscalização registrou apreensões adicionais recentes. Em Foz do Iguaçu, um casal de chineses foi preso transportando 34 ovos em incubadoras improvisadas em sacola e nas costuras de uma jaqueta; 18 filhotes já nasceram e recebem cuidados de veterinários e zootecnistas. No Aeroporto de Guarulhos, foram apreendidos 71 ovos destinados à China e ao Vietnã em apenas cinco dias, encaminhados ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS) do governo estadual.

Reabilitação e reintrodução na natureza

As aves resgatadas e alimentadas manualmente por cuidadores tornam-se excessivamente sociáveis e vulneráveis, impedindo sua soltura direta na natureza. A equipe ambiental trabalha para que esses exemplares formem casais e se reproduzam em cativeiro, permitindo que futuros filhotes, criados de forma selvagem, possam ser reintroduzidos nas matas nativas brasileiras.

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