Tolkien revela o momento mais trágico de 'O Senhor dos Anéis'

A Confissão Inédita de Tolkien Sobre 'O Senhor dos Anéis'
O momento mais trágico de 'O Senhor dos Anéis' foi revelado pelo próprio J.R.R. Tolkien em uma entrevista rara com a BBC em 1968, que permaneceu arquivada por décadas. Essa conversa, posteriormente desenterrada para um programa de rádio em 2019, apresenta reflexões profundas do autor britânico sobre os temas morais presentes em sua obra-prima.
Durante a entrevista perdida, Tolkien compartilhou pensamentos muito pessoais sobre seus personagens e sobre as complexidades éticas que permeiam toda a narrativa de 'O Senhor dos Anéis'. As revelações fornecidas pelo escritor oferecem uma perspectiva única sobre como ele conceptualizava os conflitos entre o bem e o mal em sua mitologia.
A Redação e as Origens de 'O Hobbit'
Antes de discutir o momento mais trágico de 'O Senhor dos Anéis', Tolkien comentou sobre 'O Hobbit', sua obra anterior. O escritor confessou à BBC que, se um mago tivesse o procurado durante sua infância, ele teria encontrado uma desculpa para não aceitar a aventura proposta.
"Se um mago tivesse me procurado quando eu era pequeno, a situação teria sido totalmente diferente da descrita em 'O Hobbit'", revelou o autor. Tolkien explicou que havia sido educado demais para conversar com estranhos, particularmente com pessoas mais velhas. Essa característica pessoal do escritor contrasta significativamente com o corajoso Bilbo Bolseiro, protagonista de seu primeiro romance ambientado na Terra Média.
A primeira edição de 'O Hobbit' foi publicada em 21 de setembro de 1937, data que marcou o início de uma das maior sagas literárias da história. Ao redor dessa data, há celebração da "Semana Tolkien", em reconhecimento ao lançamento que transformaria a ficção científica e fantasia para sempre.
Inspiração Pessoal nas Montanhas da Suíça
Tolkien atribuiu parte de sua inspiração criativa a uma experiência real vivenciada em 1911, quando tinha apenas 19 anos. Durante uma caminhada pelas montanhas suíças, o jovem autor enfrentou situações que moldaram significativamente seus escritos posteriores.
"Um dos pontos fundamentais de 'O Hobbit' é uma das poucas aventuras que enfrentei na minha vida", relatou Tolkien à BBC. A expedição incluiu a travessia de inúmeros desfiladeiros com apenas mochilas nas costas, dormindo em locais extraordinários e enfrentando momentos de risco extremo.
"Escapamos da morte por pouco algumas vezes, como aquela das rochas dos gigantes, e assim por diante", continuou o escritor. Essas experiências tangíveis transformaram-se em narrativas ficcionais, mantendo uma autenticidade emocional que ressoa com os leitores. Tolkien reconheceu que a jornada de Bilbo representa uma experiência pessoal verdadeira, naturalmente alterada pela imaginação criativa. "Não encontramos nenhum goblin", acrescentou com certo humor.
Os Idiomas Inventados e Suas Raízes
Durante a entrevista, Tolkien aprofundou-se no tema dos idiomas inventados que caracterizam sua obra. O autor traçou as origens dessa paixão à época em que estudava clássicos na Universidade de Oxford, quando se distraiu com um hobby incomum: o estudo do finlandês.
"Sua formação, sua textura sonora é muito marcante", descreveu Tolkien sobre o idioma finlandês. "Ele realmente me deixa bastante inebriado." O autor confessou que começou a estudar a língua quando deveria estar dedicando-se a outras tarefas acadêmicas, até o ponto em que seus ensaios sobre tragédia grega começaram a sofrer notavelmente.
O idioma da Terra Média nasceu dessa paixão linguística combinada com influências múltiplas. Tolkien explicou que começou sendo extremamente finlandês em sua formação, misturando-se posteriormente com elementos do grego e de outras línguas que aprendeu ao longo dos anos.
Após retornar dos combates da Primeira Guerra Mundial, Tolkien trabalhou como assistente do Dicionário Oxford da Língua Inglesa, experiência que aprofundou seu conhecimento etimológico. "Fui contratado para fazer etimologias e passei a conhecer muitas etimologias interessantes naquela época", recordou o escritor. Durante esse período, descobriu os idiomas algonquins, expandindo ainda mais seu conhecimento linguístico.
Gollum e a Ironia do Bem: O Ponto Mais Trágico
A revelação mais perspicaz da entrevista refere-se ao momento mais trágico de 'O Senhor dos Anéis', envolvendo o personagem Gollum. Tolkien descreveu o troglodita vingativo como "um exemplo de corrupção" personificado. Iluminou-se especialmente quando questionado sobre uma cena crucial da narrativa.
Nessa sequência fundamental, Gollum encontra-se ao lado de Frodo, o herói principal, num momento em que começava genuinamente a se regenerar. O personagem estava começando a redescobrir seu eu anterior, menos monstruoso, conhecido como Sméagol. Conforme explicado pelo professor de inglês Stuart Lee, da Universidade de Oxford, durante o programa de rádio de 2019, Gollum estava vencendo uma batalha interior.
"Ele está vencendo a batalha", descreveu Lee. "O lado bom está vencendo e ele tenta acariciar Frodo, que está dormindo." Esse momento representa um ponto de inflexão crítico na história, onde a redenção parecia genuinamente possível para o personagem condenado.
A Ironia Trágica que Define a Moralidade em Tolkien
Contudo, quando Sam, o melhor amigo leal de Frodo, intervém, tudo muda. Nesse ponto, Tolkien compartilhou uma reflexão profunda que ele considerava fundamental para compreender sua obra:
"As pessoas costumam me perguntar o que mais me comove. Acho que o ponto mais trágico de toda a história é a terrível ironia de que o bem, muitas vezes, faz o mal."
O escritor prosseguiu explicando a especificidade dessa tragédia. "O momento mais trágico ocorre quando Sam, no seu instinto protetor, diz: 'Tire as mãos daí.' Com isso, ele impede o arrependimento de Gollum. Parece ser muito fiel à vida real." Sam, ao tentar proteger seu amigo, inadvertidamente força Gollum a retornar ao seu lado malvado, frustrando a redenção que estava ao alcance.
Essa cena encapsula a visão filosófica de Tolkien sobre o mundo. Lee comentou que a ação reflete a compreensão geral do autor sobre como o bem pode inadvertidamente causar grandes danos. "O que acontece na sua mitologia é que o bem, às vezes, pode inadvertidamente fazer muito mal."
A Complexidade Moral Além do Simples Dualismo
Durante as filmagens pela BBC, o entrevistador questionou Tolkien sobre a natureza da moralidade em seus livros, observando que ela não é apresentada de forma simples como bem contra mal.
"As linhas gerais são muito simples", explicou Tolkien. "Mas é claro que, na realidade, não é assim, certo?" O autor enfatizou que sua mitologia reconhecia a complexidade humana e moral que existe além das dicotomias simples.
"Você observa o mal no lado bom", continuou o escritor. "Não são apenas os bons contra os maus, como se diz no linguajar atual." Essa perspectiva sofisticada sobre ética e moralidade permeia toda a obra de Tolkien, particularmente evidenciada naquele momento mais trágico de 'O Senhor dos Anéis' envolvendo a queda final de Gollum, quando o bem, através de Sam, inadvertidamente causa a perdição final do personagem que estava no caminho da redenção.
