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Superquarta com rumos opostos: BC reduz juros no Brasil enquanto Fed sobe nos EUA

Superquarta com rumos opostos: BC reduz juros no Brasil enquanto Fed sobe nos EUA
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Caminhos opostos nas decisões de política monetária

A semana que ficou conhecida como "Superquarta" trouxe um cenário incomum para os mercados financeiros: enquanto o Federal Reserve aumenta juros nos EUA, o Banco Central brasileiro segue em sentido contrário. O Comitê de Política Monetária (Copom) realizou corte na taxa Selic, reduzindo-a de 14% para 13,75% ao ano. Simultaneamente, o Federal Reserve nos Estados Unidos encerrou um período de estabilidade nas taxas de juros, elevando-as para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, marcando a primeira alta após três anos.

Essa decisão do Federal Reserve aumenta juros em um contexto de pressões inflacionárias persistentes na economia americana. A inflação nos EUA permanece em 3,4% em um período de 12 meses, distante significativamente da meta de 2% estabelecida pela instituição. Paralelamente, a atividade econômica americana desacelerou, com crescimento de apenas 0,4% no segundo trimestre em comparação aos três meses anteriores.

O cenário econômico por trás das decisões

No Brasil, os indicadores econômicos apresentam uma dinâmica diferente, embora apresentem alguns paralelos com o cenário americano. A inflação brasileira, medida nos últimos 12 meses, situa-se em 4,22%, permanecendo dentro da margem de tolerância estabelecida pelo Banco Central. A economia nacional cresceu 0,5% durante o segundo trimestre de 2024, representando uma desaceleração em relação aos 1,1% registrados no trimestre anterior.

As expectativas dos investidores quanto às decisões do Federal Reserve aumenta juros chegaram a 92,5% de probabilidade na terça-feira anterior ao anúncio, conforme medições do FedWatch Tool. Essa ferramenta é utilizada para acompanhar as expectativas do mercado financeiro em relação às ações do banco central americano. Os discursos mais contundentes de dirigentes da instituição, incluindo o presidente Kevin Warsh, que sinalizou a necessidade de aumentos para conter a inflação, reforçaram essas apostas.

Fatores que impulsionaram a alta de juros

A elevação dos preços do petróleo, que ultrapassou a marca de US$ 100 o barril em meio às tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã, também contribuiu para solidificar as expectativas de que o Federal Reserve aumenta juros. Esse movimento reflete preocupações com a manutenção e possível aceleração da inflação nos próximos períodos.

Como as decisões chegam ao bolso do brasileiro

A questão que mais interessa ao cidadão comum é compreender de que forma as decisões tomadas pela autoridade monetária americana impactam sua vida cotidiana. Fernando Benavenuto, especialista em investimentos e sócio-fundador da Anvex Capital, identifica dois caminhos principais pelos quais essas políticas chegam ao Brasil: a taxa de câmbio do dólar e o mercado de crédito.

O primeiro caminho envolve o mercado de câmbio, onde moedas são negociadas e o valor do real em relação ao dólar é determinado. Quando o Federal Reserve aumenta juros, há uma tendência de fortalecimento da moeda americana. Esse efeito, contudo, não é imediato. Benavenuto explica que "o efeito sobre a vida concreta do brasileiro é mais lento e vem por vias indiretas. Um dólar estruturalmente mais pressionado encarece importados e insumos, o que leva semanas a meses para chegar à prateleira."

Impacto no mercado de crédito

O segundo caminho diz respeito ao crédito disponível na economia brasileira. Juros elevados no exterior reduzem as margens de manobra do Banco Central para continuar cortando a Selic. Consequentemente, operações de crédito como financiamentos imobiliários, empréstimos pessoais e o rotativo do cartão de crédito podem permanecer caros por períodos mais prolongados do que seria desejável.

O papel das sinalizações do banco central

Uma particularidade importante é que a simples decisão de aumentar juros não representa toda a história. Junto com a divulgação da alta de juros, o Federal Reserve publica projeções que indicam para onde as taxas podem se dirigir nos próximos anos. Essas sinalizações exercem impacto muito maior sobre os mercados do que a decisão isolada.

Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, ressalta que "o mercado vive de expectativas. A alta em si mexe muito pouco com o dólar, mas o sinal do que pode ocorrer nas próximas reuniões mexe e muito com a moeda." Se o Federal Reserve aumenta juros e sinaliza que esse processo continuará, os investidores tendem a realocarem seus recursos para títulos do tesouro americano, que oferecem segurança e remuneração crescente.

Diferencial de juros entre países

A redução no diferencial de taxas de juros entre Brasil e EUA é apresentada por Benavenuto como a "verdadeira má notícia" para o real brasileiro. Quanto maior esse diferencial, maior é o incentivo para que investidores estrangeiros mantenham seus recursos no Brasil, sustentando a demanda pela moeda brasileira. Quando o Federal Reserve aumenta juros para níveis elevados e sinaliza sua manutenção, esse diferencial se comprime, reduzindo a atratividade dos investimentos em reais.

Separando fatores internos de externos

É importante notar que o Federal Reserve não é o único fator capaz de influenciar o desempenho do real nos próximos períodos. No cenário doméstico brasileiro, a situação fiscal e as incertezas relacionadas às eleições de outubro também pressionam a moeda. Separar com precisão quais movimentos originam-se de fatores externos e quais resultam de questões internas é uma tarefa complexa.

Uma metodologia útil, conforme explica Benavenuto, é comparar o desempenho do real com o de outras moedas de economias emergentes. "Se o dólar sobe contra todo o mundo, a origem é externa. E se o real 'apanha' mais que o peso mexicano, o rand sul-africano ou o peso chileno, a origem é doméstica." Contudo, Gabriel Magno ressalva que fatores internos e externos atuam simultaneamente e podem até se neutralizar mutuamente ao longo dos próximos meses.

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