Proibição de redes sociais para menores não é solução, alerta psicóloga

Questões sobre a narrativa predominante de risco digital
A discussão sobre redes sociais e seus impactos na saúde mental de adolescentes ganhou força significativa nos últimos anos, especialmente com propostas de proibição em diversos países. No entanto, especialistas questionam se essa abordagem realmente resolve o problema. A psicóloga canadense Candice Odgers, professora da Universidade da Califórnia em Irvine e pesquisadora há 25 anos na área de saúde mental infanto-juvenil, apresenta perspectivas científicas que desafiam a narrativa predominante sobre redes sociais e adolescentes.
Odgers destaca que existe uma distância enorme entre o que a mídia e a opinião pública acreditam sobre os efeitos das redes sociais e aquilo que a maioria dos estudos científicos realmente encontrou. Em um TED Talk que ultrapassou 260 mil visualizações desde junho, ela argumenta que "é muito fácil vender histórias assustadoras para os pais. Nós somos um grupo ansioso", referindo-se à preocupação crescente com smartphones e plataformas digitais.
O que revelam os estudos científicos sobre redes sociais
De acordo com Odgers, quando se analisam centenas de estudos e metanálises sobre o tema, os números revelam algo surpreendente: a associação entre tempo em telas e bem-estar explica menos de 1% da variação nos problemas de saúde mental. Isso significa que 99% das razões pelas quais adolescentes enfrentam depressão ou ansiedade provêm de outros fatores muito mais significativos.
Quando os pesquisadores controlam outras variáveis importantes – como traumas na infância, histórico familiar, saúde mental dos pais e situação econômica – as pequenas associações encontradas entre redes sociais e problemas mentais tendem a desaparecer completamente. A pesquisadora enfatiza que mesmo quando estudos indicam correlações, não fica clara qual é a direção dessa relação: se as redes sociais causam problemas mentais ou se pessoas com problemas mentais passam mais tempo online buscando apoio.
Um comitê da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos chegou a conclusão similar após um ano de estudos: pesquisas sobre a relação entre redes sociais e saúde mental mostram "efeitos pequenos" e "associações fracas", que podem ser "influenciados por uma combinação de experiências boas e ruins". Os autores ressaltam que "ao contrário da narrativa cultural predominante de que as redes sociais são universalmente prejudiciais aos adolescentes, a realidade é muito mais complexa".
Contexto global de restrições e proibições
Apesar das evidências científicas questionáveis, propostas para restringir o acesso de menores às redes sociais continuam ganhando apoio político e popular. Segundo pesquisa do Pew Research Center, 56% dos adultos nos Estados Unidos favorecem proibir o uso de redes sociais para menores de 16 anos, e 77% apoiam a proibição de celulares em sala de aula.
A Austrália se tornou o primeiro país a implementar uma proibição abrangente em 2024, impedindo menores de 16 anos de acessar plataformas como Facebook, Instagram, Snapchat, X, TikTok e YouTube. Desde então, países como França, Reino Unido e Canadá adotaram ou estudam restrições similares. No Brasil, o ECA Digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente) entrou em vigor em março, estabelecendo restrições de conteúdo e controles sem proibir completamente o uso.
Recentemente, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) brasileira determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord após caso envolvendo adolescente induzida à automutilação. A plataforma teve até 17 de agosto para cumprir a ordem, que permanece válida até que a empresa comprove adoção de medidas eficazes de proteção.
Os riscos reais das proibições
Odgers argumenta que simplesmente banir adolescentes das redes sociais pode ter efeitos contraproducentes. Na Austrália, dados publicados na revista BMJ em junho mostram que 85% dos jovens continuaram acessando as plataformas mesmo após a proibição. Quando as plataformas desativaram contas de menores, muitos adolescentes encontraram maneiras de contornar as restrições, frequentemente acessando versões para adultos sem controles parentais ou filtros de conteúdo.
Outro problema levantado pela pesquisadora é a mensagem que proibições enviam aos adolescentes. Ao caracterizar seu comportamento como viciante e perigoso, reforça-se a ideia de que estão fazendo algo errado. Comportamento online é absolutamente normal para essa geração: eles buscam consumir cultura de sua idade, conectar-se com amigos e explorar interesses. Dados de pesquisas de Odgers mostram que padrões de uso são totalmente esperados para adolescentes.
Além disso, proibições podem dificultar ainda mais que jovens denunciem abusos ou peçam ajuda. Se estão legalmente impedidos de acessar essas plataformas, muitos terão medo de relatar experiências negativas por receio de sofrer consequências.
Causas complexas além das redes sociais
Odgers questiona por que tantas pessoas buscam uma única explicação para a crise de saúde mental entre adolescentes. Nos Estados Unidos, suicídios entre jovens começaram a aumentar após a Grande Recessão de 2008. Muitos adolescentes relatam preocupação crescente com segurança nas escolas, diante do aumento de ataques a tiros. Instabilidade política, sentimentos anti-imigração, movimentos como Black Lives Matter e sensibilidade à injustiça local e global impactam significativamente a saúde mental dessa geração.
A pesquisadora também destaca que existe uma crise de saúde mental entre adultos há décadas, e a saúde mental dos responsáveis impacta profundamente a dos jovens. Fatores como instabilidade econômica, traumas no início da vida, violência doméstica e comunitária são muito mais preditivos de problemas de saúde mental do que uso de redes sociais.
Quando adolescentes sofrem bullying ou abuso online, frequentemente já enfrentam essas mesmas situações fora da internet, em ambientes como casas e escolas. Odgers aponta que a vasta maioria dos abusos contra menores ocorre com pessoas conhecidas em locais onde deveriam estar seguros, não de estranhos online.
Equilíbrio entre riscos e benefícios
Odgers não nega que existem riscos legítimos online: bullying, assédio, abuso sexual e conteúdos extremos são preocupações reais. Porém, redes sociais também oferecem benefícios significativos, especialmente para adolescentes em comunidades vulneráveis que encontram conexão e apoio que não teriam de outra forma.
A pesquisadora defende uma abordagem que prioriza a melhoria do design das plataformas para proteger todos os usuários, em vez de simplesmente excluir adolescentes. Recursos como canais de apoio via texto são extremamente valiosos para jovens vulneráveis buscarem ajuda. O Brasil segue essa abordagem ao exercer pressão por meio de políticas cuidadosamente elaboradas para melhorar a experiência online para todos.
Para pais e responsáveis, Odgers ressalta que a idade apropriada para ter um dispositivo varia conforme cada família. Ela permitiu que seus filhos tivessem celular quando entraram no sexto ano, após avaliar sua responsabilidade e o contexto escolar e familiar. O importante é estabelecer expectativas altas e apoiar adolescentes para que as alcancem, ensinando envolvimento saudável com tecnologia.
Perspectiva futura
Ao questionar publicamente a narrativa sobre redes sociais e saúde mental, Odgers reconhece enfrentar reações desafiadoras, incluindo alegações infundadas de financiamento por empresas de tecnologia. Sua pesquisa é financiada por agências governamentais e fundações de pesquisa independentes, não por plataformas digitais.
A pesquisadora alerta que políticos implementando essas leis frequentemente desconhecem como crianças realmente usam tecnologia. A inteligência artificial está transformando completamente o cenário digital, e as redes sociais serão muito diferentes em 18 meses. Precisamos ser ágeis, trabalhar com adolescentes para resolver problemas reais e focar em causas subjacentes complexas.
Em vez de proibições que criam a ilusão de segurança sem produzir resultados reais, Odgers defende investimento em apoio genuíno aos jovens, melhoria de políticas de proteção online e enfrentamento das causas raiz de problemas de saúde mental. Adolescentes de hoje são resilientes e incríveis, destaca ela, e merecem soluções baseadas em evidências, não em narrativas simplistas e assustadoras.
