Gazeta de Portugal

De la Espriella e Cepeda: visões opostas na eleição colombiana

Duas propostas antagônicas para a Colômbia

A eleição na Colômbia apresenta uma clara distinção entre os dois candidatos que disputarão o segundo turno neste domingo. De la Espriella e Cepeda representam visões fundamentalmente diferentes sobre como conduzir o país. Enquanto o advogado De la Espriella propõe um modelo de linha dura e conservador, o senador Cepeda defende uma agenda progressista com reforma social ampla.

No primeiro turno, De la Espriella obteve 43,7% dos votos contra 40,9% de Cepeda, demonstrando uma disputa equilibrada entre essas duas correntes políticas. Suas trajetórias, ideologias e promessas de campanha não poderiam ser mais distintas, refletindo as divisões que marcam o cenário político colombiano contemporâneo.

Alinhamento com tendências globais

O candidato De la Espriella apresenta um alinhamento claro com movimentos conservadores internacionais. Seu projeto de governo se aproxima das direitas de Donald Trump nos Estados Unidos, de Javier Milei na Argentina e de Nayib Bukele em El Salvador. Essa orientação marca sua posição como uma força de reação a agendas progressistas.

Por sua vez, Cepeda continua a trajetória do presidente atual, Gustavo Petro, com uma proposta de esquerda que enfatiza inclusão social e reformas estruturais. Seu discurso conciliador na área de segurança contrasta com a abordagem linha dura defendida por De la Espriella, criando uma polarização clara nos caminhos propostos para resolver os problemas nacionais.

A divisão territorial da Colômbia

Uma tendência importante emerge desde 2016, quando o plebiscito sobre o acordo de paz com as Farc dividiu a Colômbia em duas regiões com comportamentos eleitorais distintos. As regiões periféricas do país, localizadas nos litorais, na Amazônia e na fronteira com a Venezuela, tendem a votar à esquerda, enquanto as áreas do centro, atravessadas pelos Andes, preferem candidatos conservadores.

Segundo especialistas em ciência política, essa divisão territorial não é aleatória. As regiões periféricas coincidem frequentemente com áreas mais pobres e excluídas, também as mais afetadas pela violência e pelo controle de grupos armados ligados ao tráfico de drogas. A limitada presença estatal nessas regiões contribui para essas dinâmicas políticas diferenciadas.

Cepeda obteve seus melhores resultados no primeiro turno nessas áreas periféricas, onde o Pacto Histórico apostou na inclusão de populações vulneráveis, incluindo afro-colombianos e comunidades indígenas. Essa estratégia reflete uma tentativa de consolidar um projeto político baseado na incorporação de grupos historicamente marginalizados.

Diferenças econômicas entre regiões

As distinções entre as regiões não se limitam apenas à política, mas também abraçam modelos econômicos distintos. O centro do país vive de um sistema agroindustrial integrado às grandes cidades, enquanto nas periferias predomina uma economia extrativista baseada na exploração de recursos naturais.

Essas diferenças econômicas estruturais têm raízes históricas profundas e enraizaram a polarização territorial observada nas eleições recentes. Os estratos de renda mais baixa tenderam a votar em Cepeda no primeiro turno, enquanto os de renda média e alta preferiram De la Espriella, refletindo também divisões de classe social nos centros urbanos como Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla.

Propostas econômicas divergentes

Na esfera econômica, os candidatos propõem caminhos radicalmente opostos. De la Espriella defende a redução do tamanho do Estado e a diminuição de impostos para empresas, seguindo uma lógica de mercado livre. Cepeda, por sua vez, aposta no aumento do papel estatal, na transformação do campo como motor de desenvolvimento nacional e no apoio às pequenas empresas.

Essas propostas econômicas refletem filosofias políticas distintas sobre o papel do Estado na sociedade. Para De la Espriella, a solução está no mercado e na iniciativa privada, enquanto Cepeda vê o Estado como ferramenta fundamental para redistribuição de renda e desenvolvimento inclusivo.

Heranças históricas nas preferências eleitorais

Historicamente, a Colômbia foi moldada por dois partidos principais durante décadas: o Conservador Colombiano, que tinha força nas regiões andinas, e o Partido Liberal, predominante no litoral. Embora esses partidos tenham perdido força direta na política contemporânea, suas heranças ainda influenciam padrões de voto regional.

Analistas identificam continuidades que transcendem a dicotomia simples entre esquerda e direita. Setores que anteriormente votavam no Partido Conservador, depois no ex-presidente Álvaro Uribe, agora simpatizam com a versão colombiana das direitas populistas representada por De la Espriella. Similarmente, grupos que apoiaram o Partido Liberal e o ex-presidente Juan Manuel Santos encontram ressonância nas propostas progressistas de Cepeda.

Influência do protesto social de 2021

Em 2021, durante o governo do conservador Iván Duque, uma explosão social eclodiu contra o modelo econômico vigente, a injustiça social e a política tradicional. Essas manifestações, embora marcadas por episódios de violência e repressão estatal criticada internacionalmente, deixaram marcas profundas no eleitorado colombiano.

Os ecos daquele episódio reverberam nestas eleições de 2026. A explosão social de 2021 revelou demandas identitárias e novas cidadanias que se tornaram visíveis e politicamente organizadas. Analistas vinculam esse movimento a parte significativa do voto em Petro e Cepeda, enquanto interpretam a ascensão de De la Espriella como uma recomposição das direitas que busca frear esse impulso de mudança social representado pela esquerda progressista.

Além da polarização: cidadanias voláteis

Apesar de narrativas que enfatizam uma Colômbia dividida, especialistas alertam contra simplificações excessivas. Cidadanias colombianas demonstram-se cada vez mais voláteis e menos presas a identidades políticas rígidas. Um eleitor pode ter votado em Álvaro Uribe em 2006 e em Gustavo Petro em 2018, refletindo mudanças nas prioridades e valores pessoais.

Grande parte do eleitorado colombiano mantém posições menos intensas sobre questões políticas fundamentais, sem convicções profundas sobre se o Estado deve exercer maior autoridade ou mais amplitude. Essa população tende a se informar e se expressar menos sobre política, mas seus votos são decisivos no resultado final das eleições.

O papel de mensagens claras e marketing político

Analistas de marketing político apontam que De la Espriella explorou efetivamente mensagens claras sobre família, autoridade e combate firme ao crime. Essas mensagens ressoaram particularmente bem entre eleitores que buscam segurança e estabilidade moral no país.

Paralelamente, o entusiasmo gerado pela figura de Gustavo Petro e sua forma de comunicação progressista traduziu-se em alta intenção de voto para Cepeda, mesmo que nem todos os seus apoiadores se identifiquem necessariamente como eleitores de esquerda ou defensores explícitos de direitos das minorias.

A complexidade além das cédulas

As conversas sobre política nas cidades e zonas rurais colombianas frequentemente não giram em torno de autodefinições como "de direita" ou "de esquerda". Em vez disso, emergem preocupações mais tangíveis de uma cidadania em mudança: segurança, emprego, acesso a serviços básicos e oportunidades econômicas.

Essa realidade indica que a polarização visível nas cédulas eleitorais pode não refletir fielmente as nuances e complexidades das preferências políticas reais. A eleição de domingo entre De la Espriella e Cepeda decidirá não apenas quem governará a Colômbia, mas também qual modelo de desenvolvimento e sociedade prevalecerá nos próximos anos.

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