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Data center de IA em Belém gera alerta sobre ilhas de calor

Data center de IA em Belém gera alerta sobre ilhas de calor
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Data center de IA na Amazônia: novo empreendimento em Belém acende debate ambiental

A região portuária de Miramar, localizada no bairro do Barreiro em Belém, receberá o primeiro data center de IA da Amazônia, denominado BEL1 e operado pela Elea Data Centers. Este data center de IA representa um marco para a infraestrutura de computação na região, mas também desperta preocupações significativas sobre seus possíveis impactos ambientais. O empreendimento está sendo investigado pelo Ministério Público do Pará (MPPA), que alerta para riscos de formação de ilhas de calor em uma região que já enfrenta temperaturas extremas.

O projeto inicial prevê capacidade de 7,5 megawatts, com expansão futura para até 100 megawatts. Conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE), apenas a primeira fase consumiria potência suficiente para abastecer mais de 22,5 mil residências na região Norte. A data center de IA está programada para iniciar operações no segundo trimestre de 2027, promovendo maior acesso à inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais na região.

Preocupações ambientais e riscos de aquecimento térmico

O inquérito civil do MPPA investiga os potenciais riscos associados ao data center de IA, particularmente a possibilidade de criação de ilhas de calor que superaqueceriam a zona urbana. O promotor Márcio Maués, da 1ª Promotoria de Justiça de Barcarena, busca apurar a legalidade da instalação e riscos de dano climático. Sua preocupação fundamenta-se em pesquisa de cientistas da Universidade de Cambridge, indicando que data centers podem elevar a temperatura da superfície terrestre em média de 2°C, com extremos chegando a 9,1°C, propagando efeitos térmicos por raio de até 10 km.

A pesquisa de Cambridge utilizou dados de satélite da NASA para monitorar a temperatura da superfície terrestre no entorno de mais de 8 mil data centers globais entre 2004 e 2024. Os resultados apontaram aumento médio de 2,07°C na temperatura da superfície terrestre logo após o início das operações dessas estruturas. Os cientistas identificaram que o efeito térmico se propaga por até 10 km, mas sua intensidade decai rapidamente com a distância, ficando em torno de 1°C em raio de até 4,5 km das instalações.

Maués destaca vulnerabilidade de comunidades ribeirinhas próximas, como a Ilha das Onças, localizada a apenas 4,5 km do local. Segundo o promotor, essas populações não foram consultadas conforme exige a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Não houve consultas públicas com moradores dos bairros Miramar, Barreiro, Sacramenta e Pratinha, que ficam próximos à instalação.

Tecnologia de refrigeração e impactos adicionais

A empresa Elea afirma que utilizará sistemas de ar-condicionado para resfriar os equipamentos, em vez de água. Essa estratégia denomina-se expansão direta, um tipo de refrigeração industrial amplamente utilizada em data centers. O pesquisador Juliano Ximenes, da UFPA, concorda com as preocupações, detalhando que estruturas de data center dissipam energia sob forma de calor, elevando a temperatura externa em região que frequentemente já atinge sensações térmicas de 34°C ou superiores, gerando manchas de calor.

Para além da temperatura, especialistas alertam para outros possíveis desequilíbrios. O professor Ximenes aponta que manter o resfriamento contínuo dessas máquinas pode gerar poluição sonora severa. Enquanto a Lei Complementar de Controle Urbanístico de Belém limita ruídos a 65 decibéis, o entorno de data centers pelo mundo pode atingir 96 decibéis. A Elea garante que o projeto prevê mecanismos de redução de ruídos, especialmente dos geradores a diesel, não do data center propriamente dito.

Ausência de regulamentação específica no Brasil

Cenário preocupante emerge: no Brasil não existe regulamentação específica para instalações de data centers, ou seja, não há leis ou diretrizes ambientais criadas especificamente para avaliar impacto de energia e calor desse tipo de tecnologia. A Elea adquiriu terreno em área industrial privada da Axia Energia e afirma seguir trâmites gerais de licenciamento para grandes consumidores de energia. Contudo, órgãos ambientais de Belém e do estado do Pará informam não possuir pedidos de licenciamento sendo analisados.

A Secretaria de Meio Ambiente de Belém (Semma) informou, em ofício de julho de 2026, que não há processo de licenciamento ambiental para o empreendimento e, consequentemente, não existem estudos de impacto de vizinhança (EIV) nem relatórios de impacto ambiental (RIMA). A Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará (Semas-PA) confirmou ao g1 que não possui processo de licenciamento em andamento para o data center.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou não adotar tratamento diferenciado para data centers de IA e ainda estuda possíveis exigências relacionadas à infraestrutura da rede elétrica. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) não se manifestou quando consultado sobre impactos da carga prevista de 100 MW na rede local.

Fornecimento de energia e implicações operacionais

O espaço e energia utilizados pelo data center serão fornecidos pela Axia Energia, geradora e fornecedora que atua no Pará com infraestrutura de 81 usinas, respondendo por 17% da capacidade de geração do país. O centro de dados ficará em área alugada na propriedade da Axia, enquanto energia para alimentar as operações será adquirida diretamente da fornecedora, sem impactar o Sistema Integrado Nacional (SIN), conforme afirmam as duas empresas.

O CEO da Elea informou que a escolha foi estratégica devido à proximidade com subestação de energia Miramar, gerenciada pela Axia (antiga Eletrobras/Eletronorte). Lombardi afirma que região Norte é grande produtora de energia hídrica renovável, mas falta um consumidor estável de grande porte, o que pode gerar desbalanceamento e instabilidade na rede local.

Funcionalidades do data center de IA e impacto na conectividade regional

Segundo a Elea, o data center será infraestrutura necessária para que inteligência artificial funcione eficientemente na região Norte. O local funcionará como motor para facilitar acesso não apenas às tecnologias de IA, mas também aos serviços de nuvem (cloud) e conectividade. O objetivo visa fomentar ecossistema de inovação na região.

Atualmente, operações simples como um Pix ou acesso a prontuário médico no Norte dependem de rota física de dados gigantesca. Informações viajam por terra até São Paulo e seguem por cabos submarinos para processamento em Miami, Estados Unidos, antes de retornar ao Pará. Esse trajeto gera atraso tecnológico e deixa conexões vulneráveis a quedas. A empresa afirma que o prédio abrigará infraestrutura para processar transações bancárias (TEDs e Pix), prontuários eletrônicos de hospitais, sistemas do Tribunal de Justiça e garantirá que sinais de operadoras de 4G e 5G não sofram quedas.

A Elea confirmou que já possui clientes âncora de grande porte, como empresas de tecnologia e nuvem, cujos nomes são mantidos sob sigilo comercial.

Soberania digital e risco de novo extrativismo tecnológico

O professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e cientista da computação Marcus Braga afirma que o debate não é apenas técnico, mas de soberania digital. Braga defende que instalação representa oportunidade de chaveamento tecnológico para estado onde internet no interior ainda é precária. Para evitar novo ciclo de extrativismo tecnológico, apenas fornecendo espaço para empreendimento sem contrapartidas, Braga defende que estado exija reservas de capacidade, como 10% da carga de processamento para utilizar infraestrutura em setores estratégicos como saúde e monitoramento ambiental.

O debate sobre BEL1 em Belém reflete dilema global adaptado à realidade amazônica: equilíbrio entre necessidade urgente de desenvolvimento digital e proteção de microclima já severamente castigado. Levantamento exclusivo do g1 mostrou que Belém foi segunda cidade com maior número de dias castigados pelo calor atípico em 2024. Para professor Juliano Ximenes, falta de clareza reforça urgência de regulamentar uso de IA e exigir transparência das transnacionais, evitando que neoextrativismo abra novos e maiores buracos degradados no século que apenas começa.

Posicionamento das partes envolvidas

A Elea Data Centers informou que projeto está sendo implantado em área industrial privada dentro do Centro de Tecnologia da Axia Energia, com previsão de início das operações refletindo cronograma de desenvolvimento alinhado à implantação da infraestrutura e entrada dos clientes. A empresa está desenvolvendo estratégia de relacionamento com comunidades do entorno, com previsão de mapeamento das lideranças locais, apresentação do projeto e criação de canais permanentes de diálogo. A empresa afirmou não ter sido formalmente notificada pelo MPPA e permanece à disposição para colaborar com autoridades e cumprir integralmente todos os requisitos aplicáveis ao empreendimento.

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