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Câmeras com IA alertam sobre crimes, mas levantam preocupações de privacidade

Câmeras com IA alertam sobre crimes, mas levantam preocupações de privacidade
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Tecnologia de Câmeras com Inteligência Artificial para Prevenção de Crimes

As câmeras com inteligência artificial representam uma evolução significativa no campo da segurança. Diferentemente dos sistemas convencionais que apenas registram o que acontece, essas câmeras utilizam algoritmos avançados para identificar comportamentos suspeitos e potenciais situações criminosas antes que elas se concretizem. Essa abordagem inovadora, conhecida como policiamento preditivo, tem despertado interesse crescente de empresas que buscam fortalecer a proteção de seus patrimônios, embora simultaneamente gere questionamentos sobre direitos fundamentais e vigilância excessiva.

Como Funcionam os Sistemas de Previsão Baseados em IA

Os sistemas de câmeras com inteligência artificial funcionam através de um processo sofisticado de análise de imagens. O equipamento se conecta à câmera, transforma as imagens capturadas em metadados e, posteriormente, reconhece padrões comportamentais. Quando detecta uma alteração nesses padrões, o sistema emite alertas imediatos para operadores responsáveis.

Conforme explica o fundador da NoLeak, empresa desenvolvedora de soluções em policiamento preditivo para segurança privada, os metadados resultam da conversão de elementos do vídeo em sequências numéricas. Os algoritmos são previamente treinados com imagens de situações consideradas normais, permitindo posteriormente identificar quando algo se desvia desse padrão estabelecido.

Processo de Treinamento e Análise

O sistema necessita aproximadamente duas semanas de análise contínua de metadados para formar uma base de dados suficiente e reconhecer o padrão específico da imagem monitorada. Durante essa fase inicial, o algoritmo aprende as características normais do ambiente, facilitando a posterior identificação de anomalias.

Quando aplicado em vias públicas, o sistema aprende a identificar a localização da pista e as faixas adequadas para circulação veicular. Se um automóvel trafegar pela contramão ou pela calçada, por exemplo, o algoritmo detecta essa alteração e sinaliza que algo está fora do padrão esperado.

Implementação e Expansão da Tecnologia

A NoLeak, especializada em câmeras com inteligência artificial, já conectou mais de cinco mil câmeras em seus sistemas, atendendo aproximadamente cem clientes que incluem indústrias, condomínios e estabelecimentos diversos. De acordo com a empresa, a tecnologia reduz significativamente o cansaço visual dos operadores de segurança, possibilitando monitorar até dez vezes mais câmeras com o mesmo número de funcionários.

Outras empresas também atuam nesse segmento em expansão, incluindo Actuate, AxxonSoft e Coram, todas prometendo transformar câmeras convencionais em sistemas avançados capazes de prever possíveis atividades criminosas.

Aplicações Além da Segurança

Além do monitoramento de comportamentos suspeitos, os sistemas de câmeras com inteligência artificial encontram aplicações adicionais. Podem verificar se há erros em linhas de produção industrial, detectar funcionários ausentes de seus postos de trabalho e monitorar níveis de ocupação em esteiras industriais, contribuindo para a prevenção de paradas não programadas e aumento de eficiência operacional.

Preocupações com Privacidade e Direitos Fundamentais

Apesar dos benefícios prometidos, especialistas em direitos digitais levantam questionamentos importantes sobre a expansão das câmeras com inteligência artificial. Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), alerta que essa tecnologia não afeta apenas criminosos, mas também cidadãos comuns que, durante seu deslocamento quotidiano, podem ser afetados por possíveis erros do sistema.

O risco de falsos positivos representa preocupação significativa. Um cidadão comum dirigindo-se ao trabalho poderia ser sinalizado como suspeito por comportamentos perfeitamente legítimos, caso o algoritmo cometa erros de interpretação.

Falta de Regulação e Transparência

A ausência de regulação específica para sistemas de policiamento preditivo no Brasil contribui para ampliar as inquietações. A opacidade operacional desses sistemas constitui um dos problemas centrais, particularmente porque a sociedade desconhece a eficiência real dessas ferramentas. Estudos independentes apontam que muitas soluções de câmeras com inteligência artificial apresentam limitações significativas e falhas substantivas.

Casos Internacionais e Vieses Discriminatórios

A história internacional oferece exemplos preocupantes sobre como sistemas de policiamento preditivo podem amplificar desigualdades existentes. O PredPol, sistema americano que utilizava dados históricos sobre criminalidade para orientar patrulhas policiais, acabou direcionando maior vigilância para bairros com rendas familiares mais baixas e menor proporção de residentes brancos.

Na prática, o sistema resultou em aumento substancial de abordagens policiais indevidas contra moradores de comunidades de baixa renda. Essa experiência levou os departamentos de polícia de Los Angeles a descontinuarem o uso do PredPol em 2020, após pressão de grupos ativistas que denunciavam tanto a ineficiência do programa quanto a vigilância excessiva em comunidades negras e latinas.

Marco Regulatório Brasileiro

Atualmente, o Brasil não possui legislação específica regulamentando sistemas de policiamento preditivo. Contudo, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece diretrizes para o tratamento de informações sensíveis, incluindo dados biométricos faciais.

Uma portaria publicada em 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública reconheceu que as polícias podem utilizar inteligência artificial, porém com a exigência de que realizem revisões humanas quando houver possíveis riscos a direitos fundamentais.

Projeto de Lei em Discussão

Um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional pode classificar sistemas de câmeras com inteligência artificial utilizados por autoridades policiais como de alto risco. O texto, já aprovado no Senado e em discussão na Câmara dos Deputados, prevê que ferramentas de alto risco implementem supervisão humana obrigatória, passem por avaliações de impacto, garantam direito à explicação para pessoas afetadas e adotem medidas para prevenir discriminações.

Considerações Finais sobre o Uso de IA na Segurança

Especialistas argumentam que a busca por câmeras com inteligência artificial como solução para problemas históricos de segurança pública pode ser ilusória. O crescimento na procura por tecnologias que prometem resolver questões complexas de segurança reflete a esperança em encontrar soluções rápidas, porém muitas vezes negligencia as consequências de um estado de vigilância permanente sobre populações.

A implementação responsável de câmeras com inteligência artificial requer debate amplo, regulação clara e garantias robustas de proteção aos direitos fundamentais dos cidadãos.

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