O projeto “Fireuses” – Paisagens de Fogo, que investigou a história dos incêndios rurais, foi debatido hoje em Lisboa e trouxe à tona uma importante reflexão sobre as práticas de fogo no combate aos incêndios florestais. O estudo concluiu que essas práticas, consideradas “primitivas” e abandonadas ao longo do tempo, podem ser uma ferramenta valiosa no combate aos fogos.
O projeto, liderado pela investigadora Maria João Alcoforado, teve como objetivo compreender a relação entre o fogo e as paisagens rurais, desde a pré-história até os dias atuais. Através de uma abordagem multidisciplinar, que incluiu a análise de documentos históricos, entrevistas com comunidades locais e estudos de campo, a equipe de pesquisa descobriu que as práticas de fogo eram amplamente utilizadas no passado para gerir as paisagens rurais e prevenir incêndios.
No entanto, ao longo dos séculos, essas práticas foram gradualmente abandonadas devido à influência de políticas governamentais e à mudança de mentalidade da sociedade. O fogo foi visto como uma técnica “primitiva” e prejudicial ao meio ambiente, levando ao seu banimento e à proibição de seu uso. No entanto, o estudo revelou que essa decisão teve consequências negativas, especialmente no que diz respeito ao aumento dos incêndios florestais.
Segundo Maria João Alcoforado, “o fogo é uma ferramenta poderosa e pode ser usado de forma controlada para prevenir incêndios e gerir as paisagens rurais. No entanto, quando é proibido e reprimido, pode se tornar um inimigo perigoso”. O estudo mostrou que as comunidades que ainda mantêm as práticas de fogo tradicionais têm uma taxa de incêndios muito menor do que aquelas que as abandonaram.
Além disso, o projeto “Fireuses” também identificou que algumas dessas práticas podem ser adaptadas e utilizadas no combate aos incêndios florestais. Por exemplo, a queima controlada de áreas estratégicas pode criar barreiras naturais que impedem a propagação do fogo. Além disso, a limpeza de áreas florestais através do fogo pode reduzir o acúmulo de material combustível, diminuindo assim o risco de incêndios de grande proporção.
O debate realizado em Lisboa contou com a presença de especialistas em incêndios florestais, representantes de comunidades locais e autoridades governamentais. Foi uma oportunidade para discutir e refletir sobre a importância das práticas de fogo no manejo das paisagens rurais e no combate aos incêndios. O evento também destacou a necessidade de uma abordagem mais integrada e sustentável na gestão das florestas, que inclua o conhecimento e as práticas tradicionais das comunidades locais.
O projeto “Fireuses” é um exemplo de como a pesquisa científica pode trazer à tona questões importantes e propor soluções inovadoras para problemas atuais. Através da valorização do conhecimento tradicional e da colaboração entre diferentes áreas de estudo, é possível encontrar alternativas eficazes e sustentáveis para a gestão das paisagens rurais e a prevenção de incêndios florestais.
Portanto, é fundamental que as práticas de fogo sejam resgatadas e valorizadas, e que haja uma mudança de mentalidade em relação ao seu uso. O fogo não deve ser visto como um inimigo, mas sim como uma ferramenta que, quando utilizada de forma consciente e responsável, pode trazer benefícios para o meio ambiente e para a sociedade. O

