Familiares e amigos se despedem da ialorixá Mãe Carmen de Oxaguian no Terreiro do Gantois, em Salvador
Na última sexta-feira do ano, familiares e amigos se reuniram no Terreiro do Gantois, em Salvador, para se despedir da ialorixá Mãe Carmen de Oxaguian. Ela foi ialorixá do terreiro por 23 anos e deixou um legado de amor, acolhimento e resistência para todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-la.
Filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen faleceu aos 79 anos, após ficar internada por duas semanas no Hospital Espanhol, em decorrência de uma gripe. Seu cortejo fúnebre seguiu para o cemitério Jardim da Saudade, onde foi sepultada em meio a muita emoção e homenagens.
Mãe Carmen deixa um grande legado para sua família, composta por duas filhas, três netos e quatro bisnetos. Além disso, ela também deixa uma família de filhos e filhas de santo, como Thiago Coutinho, que foi criado no Terreiro do Gantois. Para ele, Mãe Carmen sempre foi uma guerreira, disposta a lutar pela mudança, pelo crescimento e pela paz.
“Como uma boa filha de Oxaguian, Mãe Carmen sempre esteve pronta para a guerra em prol do bem. Ela deixa um legado de continuidade em cada filho e filha que ela acolheu. Hoje, nós nos despedimos dessa grande guerreira que vai para o Orum, mas que continua sendo um farol a nos iluminar e nos guiar. Na religião dos orixás, não se morre, se ancestraliza”, afirma Thiago.
Mãe Carmen também era uma referência para outras casas de axé, como o Ilê Axé Opô Afonjá, liderado pela escritora e ialorixá Mãe Cléo. Ela relembra a presença marcante de Mãe Carmen em momentos importantes de sua vida e destaca sua elegância, inteligência e seriedade no comando do Gantois.
“Em vários momentos da minha vida, Mãe Carmen foi muito solidária e sempre teve uma memória incrível. Eu a chamava de rainha da Inglaterra, pois ela tinha um penteado e um porte muito parecidos com os da rainha Elizabeth II. Ela era uma pessoa feita para ser uma grande diplomata, mas também era firme e governava o Gantois com muita seriedade”, afirma Mãe Cléo.
A morte de Mãe Carmen também foi sentida por líderes espirituais de outras casas de axé, como Mameto Kamurici, do Terreiro São Jorge Filho da Gomeia. Para ela, a passagem de Mãe Carmen é um renascimento para a eternidade e é importante que todos se unam para honrar seu legado e continuar a preservar a tradição do candomblé.
“Nesse momento, pedimos a todos os bakulos, inquices, caboclos e encantados que acolham o espírito de Mãe Carmen e o transformem em luz, para que ela continue a iluminar o legado do Gantois. É um dia de muita reflexão e união, pois quando perdemos alguém tão importante, é hora de nos unirmos e mostrarmos nossa solidariedade à família do Gantois”, declara Mameto Kamurici.
A morte de Mãe Carmen também foi lamentada por autoridades políticas e artistas. O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, destacou a importância do terreiro e da condução de Mãe Carmen, chamando-a de guardiã de uma tradição ancestral

